Para casal, Brasil é bom pela diversidade

Conviver com as diferenças traz aprendizado, diz família bahá?i

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 00h00

Aos 20 anos, a iraniana Nahid Shams deixou para trás a família e o país em busca de melhores oportunidades. "Não havia muitas chances para uma jovem mulher bahá?i como eu no Irã após a Revolução Islâmica." Ao lado de outros 16 jovens seguidores da mesma religião, Nahid pegou um ônibus até Zahedan, próximo à fronteira com o Paquistão, e, de lá, atravessou o deserto a pé, durante cinco dias, até o país vizinho. Na mesma época, estima-se que mais de 200 bahá?ís deixaram o Irã com destino ao Brasil. "Na primeira tentativa de chegar perto da fronteira, atiraram contra nós. Tivemos de ficar um dia inteiro escondidos, sem água nem comida, até ter o sinal verde dos ?guias? para seguir em frente novamente", diz Nahid. "Mas não tive medo. Tem momentos na vida que você tem de fazer escolhas. Não acredito que tudo é obra do destino." No Paquistão, Nahid conheceu Ramim, refugiado bahá?i como ela. Seis meses depois, com a ajuda da Agência da ONU para os Refugiados e da comunidade bahá?i, o casal chegou ao Brasil. "Tínhamos US$ 100 e uma câmera fotográfica."Ramim conseguiu emprego em um laboratório fotográfico. Tornou-se fotógrafo profissional e, hoje, é dono de uma empresa de fotos para escolas. "Eu terminei o ensino médio e queria fazer faculdade, mas, os bahá?ís não podiam cursar a universidade e tinham oportunidade de trabalho restritas. O governo parou de pagar a aposentadoria do meu pai. Também tive amigos assassinados", conta Nahid, que hoje, mais de duas décadas depois de ter se refugiado no Brasil, cursa o segundo ano de Psicologia. "Tivemos de refazer a vida. O começo foi duro. Agora que meus filhos estão crescidos, decidi realizar esse sonho." Ramim está no último ano de Marketing. O casal teve dois filhos no Brasil, Amir, de 17 anos, e Jena, de 18 anos. "Foi importante criar meus filhos dentro da religião bahá?i porque ela ensina valores morais muito importantes", diz Ramim. "Tudo no Brasil é muito diferente, mas eu penso que isso é bom, porque é a diversidade que faz um aprender com o outro. O que vale é dar uma estrutura espiritual aos filhos, seja de que religião for", diz Nahid. "De acordo com a educação que tive, os jovens brasileiros são muito liberais. Mas, isso não impede que sejamos amigos. Eu tenho a minha cultura e eles têm a deles. Eu aprendi a respeitar as diferenças", diz a filha, Jena. Entre os princípios da fé bahá?i está a castidade antes do casamento. O divórcio é permitido tanto por iniciativa do homem como da mulher. Mas, antes que a separação de concretize, eles têm de atravessar um "ano de paciência", em que o casal vive em casas separadas, mas é estimulado pela assembléia bahá?i local a desfazer as diferenças e a reaver os laços de amor e amizade.

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