Para eles, a tragédia da Air France faz reviver dor da perda

Parentes de vítimas de desastres aéreos contam como é acompanhar notícias do acidente

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

03 de junho de 2009 | 00h00

A angustia é reconhecida a distância. Eles sabem decifrar cada expressão no rosto dos parentes dos desaparecidos na rota Rio-Paris, no voo AF 447, da Air France. Um déjà-vu dolorido, boca seca, negação. Quem já esperou notícias de sobreviventes de tragédias de avião é espectador diferenciado do caso do Airbus da empresa francesa. Ler jornal, ouvir rádio ou ver TV é reviver, de uma vez só, sensações que estavam diluídas. O nó sentido segunda-feira de manhã na garganta de Archelau Xavier, de 56 anos, já havia sido atado há quase dois anos. "Foi no dia 17 de julho de 2007 para mim", diz, em referência à data da explosão da aeronave da TAM no Aeroporto de Congonhas. Sua filha mais velha era uma entre as 199 vítimas . As buscas de pistas de passageiros da Air France que agora são feitas no Oceano Atlântico foram deflagradas na época da tragédia da TAM no local dos destroços do acidente. "A palavra remota para falar de chance de haver sobreviventes não alivia a expectativa", conta Xavier. "Demoraram nove dias para encontrar a minha filha. Só então eu me convenci de que ela não estava viva. Até então, tinha esperança", completa o pai, que ainda fala do acidente no presente. "Por isso, insisto que agora todas as alternativas devem ser esgotadas." Ele já voltou a trabalhar em São Paulo, depois de quase desistir da profissão de engenheiro. Foi a caminho do trabalho que Angelita Marchi, de 41 anos, reviveu o 16 de novembro de 2006 como se fosse dia presente, ano em que o Boeing da Gol caiu na floresta amazônica. Em uma das poltronas estava seu marido, que só teve o corpo reconhecido seis dias depois. "Foi a pior sensação. Voar de avião para reconhecer meu amor e voltar com ele no bagageiro", diz ela, com a voz embargada parecendo descrever o diário recente. Agora, a moradora de Campinas, interior paulista, diz que sua esperança de ter uma boa novidade sobre passageiros da Air France é derrubada em pílulas, em cada novo pronunciamento, "igualzinho como foi na minha vez", contaSandra Assali também reagiu assim, como se a queda do Fokker 100 da TAM, em 1996, que matou o seu marido, e o desastre do último domingo não no fossem separados por um intervalo de 13 anos. Hoje, seus filhos já não são mais tão pequenos quanto na época em que não entenderam por que o pai não voltou para casa. "Eles tinham 4 e 6 anos e nunca reclamavam de eu ter aberto a porta da minha casa para receber, a qualquer horário, outros parentes de vítimas", afirma. Agora, adolescentes, pedem cautela no envolvimento. Mas olham orgulhosos a mãe reunir forças e estar de malas prontas rumo ao Rio, para dar suporte a quem encara o drama que Sandra revive desde o início da semana. EXPLICAÇÃO CIENTÍFICAO que eles chamam de "dor que não passa" tem explicação na psiquiatria. "É o stress pós-traumático, comum de vir à tona quando uma situação parecida ao drama pessoal acontece", explica a professora da PUC-SP Maria Helena Pereira Franco, que atualmente faz um trabalho de terapia de grupo com 114 parentes de vítimas de acidentes aéreos. Os serviços especializados em atender esses tipos de casos costumam ficar mais movimentados agora, afirma o psiquiatra José Paulo Fiks, do Projeto de Atendimento e Pesquisa em Violência (Prove). "O acidente aéreo exige um tratamento particular dos parentes das vítimas porque é muito espetaculoso", conta. "As imagens são repetidas à exaustão na mídia e é natural que isso aconteça. Mas, para quem já viveu situação semelhante, é uma exposição até perigosa."Ficks e Maria Helena contam que um avião não precisa necessariamente cair para disparar o stress. Xavier, não faz muito tempo, teve a mesma sensação quando uma pizza margherita foi entregue em sua casa. "Comia com a minha filha todos os domingos. O cheiro me fez desabar." Angelita tem recaídas quando escuta algumas músicas. "Daí vou ao banheiro e vejo a escova de dentes dele ao lado da minha. Intacta." OS ACIDENTES 31/10/ 1996 - Um Fokker 100 da TAM cai 2minutos e 2 segundos depois de receber a autorização para sua decolagem no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O avião seguia para o Rio. Morrem 99 pessoas, sendo 89 passageiros e 3 tripulantes e 4 em solo29/9/2006 - Um Boeing 737-800 da Gol cai perto de Peixoto Azevedo, em Mato Grosso, depois de se chocar com um jato Legacy no ar. Morreram 154 pessoas. O jato consegue pousar numa base militar, próxima a Serra do Cachimbo, no Pará, sem vítimas. O Gol havia saído de Manaus rumo a Brasília. O Legacy partiu de São José dos Campos, em São Paulo, em direção a Manaus. 17/7/2007 - Ao tentar aterrissar no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, um Airbus A320 da TAM não consegue frear durante a aterrissagem. A aeronave atravessa a pista de Congonhas, passa por cima da Avenida Washington Luís e bate num prédio. Morrem 6 tripulantes e 181 passageiros, além de 12 pessoas que estavam em terra. Foi o pior acidente aéreo do Brasil

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