Wilson Pedrosa/AE-9/7/2009
Wilson Pedrosa/AE-9/7/2009

Para EUA, é hora de consertar a relação

Diplomatas americanos dizem que mudança abre espaço para aparar arestas diplomáticas

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2011 | 00h00

O voto do Brasil contra as sanções no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) ao programa nuclear iraniano foi o ápice de uma série de atritos com os Estados Unidos nos últimos anos. Em um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva às margens da cúpula de segurança nuclear em Washington, em abril de 2010, o presidente americano, Barack Obama, saiu visivelmente irritado com a intransigência de Lula, que se negava a discutir sanções contra o Irã.

"Desde então, ficou um mal-estar entre os dois presidentes, um "bad blood"", conta um integrante do governo americano. O episódio até frustrou qualquer ambição do Brasil de emplacar um brasileiro na presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) - na época, os americanos deixaram claro que, diante da situação iraniana, não iriam apoiar um brasileiro para substituir o colombiano Luis Alberto Moreno.

Lula, por sua vez, disse ter se sentido "traído" por Obama e pela secretária de Estado Hillary Clinton quando os dois ignoraram a proposta de acordo de troca de combustível nuclear do Irã, mediada pelo Brasil e pela Turquia, e costuraram as sanções.

É por isso que tanto os EUA como o Brasil encaram a troca de presidente brasileiro como um recomeço, uma chance de aparar as inúmeras arestas acumuladas nos últimos anos. "Com Obama e Lula, isso seria impossível, agora com a presidente Dilma Rousseff, simplesmente por ela ser outra pessoa, sem o passado de atritos com Obama, a relação bilateral deve melhorar", diz um integrante do governo brasileiro.

O segundo mandato do presidente Lula foi marcado por uma tensão crescente com o vizinho norte-americano envolvendo questões como o golpe de Estado em Honduras, a expansão do uso de bases colombianas pelos EUA, a pressão pela readmissão de Cuba na Organização dos Estados Americanos (OEA), o relacionamento com o presidente venezuelano Hugo Chávez e, acima de tudo, a questão nuclear iraniana.

"O relacionamento entre Brasil e Estados Unidos ficou muito deteriorado nos últimos anos", diz Matias Spektor, coordenador do Centro de Relações Internacionais da FGV e autor de Kissinger e o Brasil (2009). "Mas Dilma já fez dois gestos importantes: em entrevista ao Washington Post, sinalizou uma guinada no relacionamento do Brasil com o Irã e deu a entender que pode fazer uma viagem aos Estados Unidos no início do seu governo, talvez após visitar Buenos Aires."

O embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, ameniza os atritos. "Os dois precisam primeiro fortalecer seus valores e interesses compartilhados e trabalhar para administrar as divergências de maneira que elas não prejudiquem os pontos de convergência", disse Shannon ao Estado.

E quais são os pontos de convergência, segundo Shannon? A reforma da representatividade nas organizações internacionais, bom funcionamento nas instituições financeiras globais, comprometimento com direitos humanos, livre comércio e as instituições democráticas.

"O futuro de nossa relação não está nas questões bilaterais, mas sim nas questões globais", diz o embaixador americano. O que Shannon diz é música para os ouvidos do Itamaraty e do assessor internacional Marco Aurélio Garcia, que já afirmou, em entrevista ao Estado: "Se os EUA insistem que temos de nos ocupar da América do Sul e eles se ocupam do mundo, isso não vai acontecer."

Interesse. Para Carl Meacham, assessor sênior do senador Richard Lugar no comitê de relações exteriores do Senado americano, os americanos ainda não "acordaram" para o interesse do Brasil de desempenhar um papel no cenário global e não sabem exatamente "qual é" a do Brasil. "Muitos não sabem se o Brasil é apenas um amigo casual dos Estados Unidos ou um aliado sério", disse Meacham ao Estado.

O fato é que, desde o episódio Irã, em junho, as relações ficaram paralisadas - e o gelo só foi quebrado com a recente visita a Brasília de William Burns, subsecretário de Estado para Assuntos Políticos dos EUA.

A entrevista de Dilma ao Washington Post ajudou a distensionar a relação. No jornal, ela indicou que não teria a mesma posição de Lula na votação da resolução sobre direitos humanos no Irã proposta na ONU, em novembro. "Não concordo com o modo como o Brasil votou. Não é a minha posição", afirmou Dilma. O Brasil absteve-se na votação do documento que condenava medidas como amputações, chibatadas e apedrejamentos no Irã. "Ficaria desconfortável, como uma mulher eleita presidente, em não me manifestar contra o apedrejamento."

Mas segundo Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue - que acompanha as relações bilaterais há décadas -, apesar de o gesto ser bem-vindo, não é suficiente. "A questão dos direitos humanos, na visão dos EUA, é importante, mas não central - vide a relação dos próprios EUA com países como Egito, Arábia Saudita e Rússia, não exatamente conhecidos por seu empenho na proteção aos direitos humanos", diz Hakim. "Se o Brasil passasse a pedir transparência no programa nuclear iraniano e votasse a favor de sanções contra o país, na ONU, isso mudaria todo o tom da relação." E ainda não se sabe qual será a postura de Dilma na questão nuclear.

Já Spektor acha que o gesto em direitos humanos é, sim, muito importante. "A visão do Brasil como parceiro confiável passa por isso - Brasil é um negociador duro, mas, como nós americanos, uma democracia multirracial, que compartilha dos mesmos valores, e direitos humanos são parte disso", exemplifica.

O Itamaraty considera muito positivo o fato de Hillary interromper suas férias para vir à posse da presidente Dilma. Mas os EUA não são vistos como prioridade dentro do Ministério de Relações Exteriores, que negocia um acordo limitado de comércio e cooperação econômica com o país, sem muita ênfase.

"Não há uma relação de causa e efeito entre esses acordos e aumento de investimentos ou comércio", diz uma fonte diplomática. A mesma fonte aponta que os Estados Unidos deixaram de ser o principal parceiro comercial, ultrapassados pela China, e também devem ser superados em fluxo de investimentos. "As relações estão menos assimétricas, os EUA é que precisam se mexer para não perder espaço", diz o diplomata.

Meacham, do Senado americano, tem visão oposta. "Para fortalecer a relação bilateral, deveríamos ter uma estrutura institucional, com acordos bilaterais, eliminação de bitributação, um tratado de comércio e investimentos, envolvendo não apenas o Executivo, mas também o Congresso."

"Há bolsões de anti-americanismo no governo vai continuar a ênfase na autonomia da política externa do País, o que é diferente de anti-americanismo, embora se confunda", diz Spektor.

Mas há perspectiva de aproximação dos dois países em grandes áreas de cooperação: G20 e reforma financeira, comércio internacional, mudança de clima, cooperação na África. A própria nomeação de Antonio Patriota como chanceler sinaliza para maior aproximação - ele foi embaixador em Washington durante dois anos e é casado com uma americana.

Atritos. Foram várias as questões que contribuíram para a tensão entre os dois países nos últimos anos. O Brasil pressionou insistentemente para que Cuba fosse readmitida na OEA, o que irritou os Estados Unidos. Também desagradou aos EUA o fato de o Brasil ter se oposto de forma vocal à ampliação do acesso dos EUA às bases militares colombianas.

Honduras foi outro ponto nevrálgico. Os EUA mediaram um acordo para realização de eleições em Honduras, após o presidente Manuel Zelaya ter sido deposto. O Brasil não concordava com o acordo, que não exigia a volta de Zelaya ao país, e até hoje não reconhece o governo eleito em 2009. Os americanos acham que o Brasil tem sido duro demais com o presidente eleito, Porfírio Lobo, e intransigente em sua defesa do líder deposto Manuel Zelaya - o que estaria atrapalhando a reconstrução da estabilidade política dos hondurenhos.

Ambição. No caso iraniano, em maio de 2010, a tentativa, do Brasil e da Turquia de evitar sanções na ONU contra o programa nuclear do Irã foi rejeitada de forma taxativa pelos EUA, que se irritaram. "Essa atuação atingiu as pretensões brasileiras a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, porque solapa as próprias fundações do CS", disse um integrante do governo americano. Alguns meses depois, os governo americano apoiou a Índia para um assento em um conselho permanente ampliado da ONU - grande ambição do Brasil, que vem pedindo há anos esse aceno dos americanos.

Para David Fleischer, professor emérito de ciência política da Universidade de Brasília, a presidente Dilma Rousseff vai ter relações menos ideológicas com os Estados Unidos, mais focadas no âmbito econômico do que político. "O relacionamento vai melhorar, mas não ao ponto de o Brasil comprar os caças da Boeing", brinca.

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