Para evitar sombra, lula promete ajuda discreta

O presidente vai tirar duas semanas de férias depois de passar a faixa, no dia 1º de janeiro, e antes de assumir um instituto em São Paulo

Vera Rosa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2010 | 00h00

Criador, padrinho e avalista da candidatura de Dilma Rousseff (PT), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz de tudo para mostrar que não será uma sombra no governo da sucessora. Embora atue nos bastidores para facilitar o caminho de Dilma e já avalie com ela os cargos estratégicos do primeiro escalão, o presidente avisou que vai sair de cena.

Os sinais da desencarnação política na vida de Dilma revelam o esforço de Lula para deixar a futura presidente andar com as próprias pernas. "O apoio será discreto. Ele não quer ofuscá-la nem funcionar como alguém que corre em paralelo", disse o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho.

Logo após passar o bastão para Dilma, em 1.º de janeiro de 2011, Lula vai tirar férias de duas semanas. Quando voltar, promete se dedicar a projetos de combate à fome e à miséria. Montará um instituto, em São Paulo, que guardará cartas, documentos e presentes recebidos durante os oito anos na Presidência. O prédio também vai abrigar seu escritório político.

Cotado para ocupar cargos internacionais, como a direção-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Lula ainda mantém o plano de percorrer os países da África e "cuidar" das relações com a América Latina. De quebra, quer aproveitar a popularidade na casa dos 80% para viajar pelo Brasil e ter a liberdade de agir sem ser "cobrado" como tutor de Dilma.

"Um ex-presidente da República não indica, não veta", afirmou ele, em entrevista ao lado de Dilma no Palácio do Planalto, há quatro dias, na tentativa de negar sua influência sobre a composição do novo governo. "Quem sou eu?", completou, mais tarde. "Nem o Mano Menezes, quando foi convocado para a Seleção, pediu para o técnico do Corinthians manter os jogadores que ele mantinha."

Depois, virando-se para a herdeira, foi ainda mais incisivo. "A bola está com a senhora, dona Dilma. Monte o seu time que eu estarei na arquibancada, de camisa uniformizada, sem corneta, batendo palmas", insistiu. Dilma abriu um sorriso. Quando Lula tentou antecipar a entrega da faixa, porém, ela o corrigiu: "O senhor é o presidente. Eu serei".

"Facilitador". Apesar do discurso, Lula está conversando com a futura sucessora sobre os nomes da equipe. Sugeriu, por exemplo, a permanência de Guido Mantega (Ministério da Fazenda) e de Henrique Meirelles (Banco Central) - ainda que apenas na primeira etapa da transição. A decisão final, porém, ficará a cargo de Dilma.

"Lula é um facilitador, um conselheiro", resumiu o governador reeleito do Sergipe, Marcelo Déda (PT). "A cara do governo será a da Dilma, que, aliás, é bem diferente: ela não tem barba e a voz nem de longe é a mesma", brincou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que permanecerá na equipe.

Na lista de credenciais exigidas para os novos ministros, Dilma destacou que todos devem ter "vínculos muito fortes" com sua política de linha desenvolvimentista. Embora vá escalar o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci para o time, a petista não definiu sua cadeira.

Tudo dependerá da nova configuração do núcleo duro do governo, a "cozinha" do Planalto, e de como ficará a articulação política. Na prática, Palocci é uma espécie de curinga. Tanto pode ir para a Secretaria-Geral da Presidência como para a Casa Civil ou o Ministério da Saúde.

Uma coisa, porém, é certa: Dilma não gosta de sombra e rejeita o carimbo de "homem forte" para qualquer auxiliar. Apesar de Palocci ter esse perfil e ser hoje um de seus principais interlocutores, ele mesmo tem dito que não quer tanta visibilidade para evitar ser alvo de fogo amigo.

No início do primeiro mandato de Lula, em 2003, o time de burocratas poderosos era chamado de "núcleo duro do Planalto" e mais atrapalhou do que ajudou na governança. "Sombra é só para proteger a pele do sol bárbaro", desconversou Dilma. "Vivemos em um regime presidencialista e os ministros têm que ser competentes, não sombras."

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