Para fugir do rodízio, administrador adultera placa de carro em SP

O administrador de empresas Fernando Aur Raso, de 23 anos, dirige um Fiat Palio preto, placas CLB 9797. Mas às quintas-feiras, para driblar o rodízio ele muda de placa: coloca um pedaço de fita isolante e transforma o primeiro nove em oito. Nesta quinta-feira, ele foi detido e autuado por estelionato. Além de ter pagar mais de R$ 500 em multas e perder 24 pontos na carteira, pode pegar até 11 anos de cadeia. Foi a determinação de outro motorista, o advogado Pedro Duarte que levou a polícia a Raso. O carro de sua mulher, um Fiat Uno Mille azul, placas CLB 8797, foi multado seis vezes por não respeitar o rodízio, sempre às quintas-feiras. "Na segunda multa, eu desconfiei que havia algo de errado", conta o advogado. "Ela nunca usa o carro para ir ao trabalho neste dia". Com as multas na mão, Duarte decidiu descobrir quem era o verdadeiro infrator e começou uma investigação que terminou na última sexta-feira. Nesta quinta-feira, dia em que as placas do Palio de Raso mudam de 9797 para 8797, o administrador teve uma surpresa. Às 8h14, na Avenida Braz Leme, perto do prédio onde ele trabalha, três policiais militares estavam a sua espera.O major Altino pediu o documento do carro ao motorista. Raso, então, diz que esqueceu a carteira de habilitação em casa, mas mostra a documentação. O policial repara que o número no documento não bate com a placa do carro. O administrador, formado pela Fundação Getílio Vargas, afirma que ?estava muito atrasado e teve de fazer isto (adulteração). O major rebate dizendo que se estava tão atrasado, como deu tempo de alterar as placas dianteira e traseira ? O rapaz argumentou que fazia aquilo pela primeira vez. "Senhor Fernando, eu lamento profundamente mas a casa caiu", disse o major Altino, desmascarando o infrator. Raso desceu do carro e, antes de responder a qualquer outra questão, ligou para o pai. Bem vestido, o administrador usava acessórios de grife, relógio da marca Tag Heuer, celular Motorola último modelo e óculos de grau importados. Quando um dos policiais perguntou se "vale a pena tudo isto", o dono do Palio respondeu que ele não era único a fazer isso". O pai, Guerino Raso Neto, chegou logo depois, trazendo a habilitação que Raso havia esquecido em casa. Tenente Gianonni consultou o Código Nacional de Trânsito para se certificar em qual artigo Raso se enquadra. No 13º Distrito Policial, na Casa Verde, o delegado Sérgio Paulo Abreu não teve dúvidas, indiciou Raso por estelionato. Sem perder a pose, o administrador reagiu: "Pelo menos, a cela é especial". Mas não chegou a ficar preso. Quando o laudo da perícia estiver pronto, ele também será indiciado por crime de adulteração de placas do veículo. Juntas, as penas somam mínimo de quatro anos e máximo de 11 de reclusão. O Palio foi apreendido. "Que isto sirva de exemplo para aqueles que, como Fernando, acham que as normas e regras da sociedade não se aplicam a eles", disse o delegado. A investigação do advogado começou quando Duarte percebeu que todas as multas foram feitas no mesmo horário, entre 8h e 8h20. O local também era sempre o mesmo local, na avenida Santos Dummont, próximo à ponte das Bandeiras. Duarte conheceu, então, o fiscal de trânsito da CET Nogueira, que trabalha todos os dias naquele ponto. "O Nogueira foi fundamental no sucesso da investigação", agradece o advogado. O delegado Sérgio Paulo recomenda àqueles que passam pela mesma situação de Duarte, usar o advogado como exemplo. "O que ele foi fez foi o correto. Ele precisava de provas e as conseguiu." Mas ele avisa que abordar sozinho o infrator pode ser perigoso. "A gente nunca sabe quem está por trás do volante." O delegado também admite que o ideal seria ter "meios e pessoal suficiente para atender a estas ocorrências. Mas a demanda em São Paulo é muito grande".

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