Para juíza, assassino de Glauco ainda é doente e deve voltar às ruas

Magistrada destaca que Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu, é ‘inimputável’ e mantém laudo de ‘esquizofrenia paranoide’

Marília Assunção, O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2014 | 20h44

GOIÂNIA - A juíza Telma Aparecida Alves Marques, da 1.ª Vara de Execução Penal de Goiânia, responsável pelo fim da internação psiquiátrica de Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu, afirmou nesta terça-feira que ele continua inimputável e em um prazo de três anos provavelmente voltará às ruas.

Assassino confesso do cartunista Glauco Vilas Boas e do filho dele, Raoni, em 2010, Cadu é suspeito de um latrocínio (roubo seguido de morte) e de uma tentativa de latrocínio, em Goiânia, crimes que tiveram testemunhas e imagens confirmando a presença dele. O rapaz está preso desde segunda-feira.

Telma informou nesta terça que ele era acompanhado mensalmente por um psiquiatra e por um psicólogo, que a municiavam de relatórios, e a alta da clínica psiquiátrica teve como base laudos especializados. Disse também que Cadu estava fazendo faculdade de Psicologia e tinha arrumado um emprego no call center de uma companhia telefônica, mas foi dispensado quando a empresa soube que cumpria medida de segurança.

Relatórios. "Estava indo perfeitamente (em outro trabalho), com nada que desabonasse a conduta. Às 23 horas, no máximo, estava em casa. Temos relatório da família, informando isto. Ele não ficava na rua e fazia como determina a Justiça. A vida estava controlada, como pessoa comum", disse Telma.

A magistrada reiterou que os relatórios que são enviados confirmam que Cadu mantém a doença, a esquizofrenia paranoide, "em nível estável, sem alteração, está consciente e tranquilo". Dessa forma, não deverá ser recolhido à prisão pela morte no domingo do estudante Mateus Morais Pinheiro. "Ele é inimputável. Com tratamento, deve voltar às ruas em um prazo de três anos", disse.

Questionada sobre a possibilidade de, se ficar solto novamente, Cadu matar outras pessoas, ela rebateu que "quem deve responder são os deputados que fazem a legislação". "O Poder Judiciário toma atitudes conforme as leis, que não são feitas por nós, juízes."

Depois, admitiu não estar alheia à repercussão desses casos. "Imagino que exista uma insatisfação da sociedade, que se sente refém, em casa, presa, enquanto a Justiça põe nas ruas pessoas que foram incriminadas. É muito difícil entender isto, mas não existe uma pena perpétua", ressaltou.

Cadu é um dos 425 pacientes atendidos em Goiás pelo Programa de Atenção ao Louco Infrator (Paili), dos quais, diz a magistrada, 88 já tiveram as medidas extintas e apenas dois cometeram crimes graves, Cadu e outro homem, que assassinou uma pessoa. "É menos de 1%."

A juíza destacou ainda que é preciso aprofundar a investigação para verificar se Cadu não estava sendo usado por criminosos, que tinham noção da sua doença mental e da condição de inimputável. Ao ser preso nesta semana, ele estava com Ricardo Pimenta Andrade, de 33 anos, acusado de tráfico em Minas. Os dois são suspeitos de fazerem parte de uma quadrilha que roubava carros de luxo no Setor Bueno de Goiânia.

Processo. Telma explicou que, se o rapaz for mantido preso até o fim do julgamento, o processo de medida de segurança que estava sob responsabilidade dela ficará suspenso, aguardando uma decisão do juiz da condenação. Ele, por sua vez, terá de buscar todas as provas apresentadas, as testemunhas, bem como suporte técnico-científico com mais laudos.

Municiado dessas informações, um novo juiz poderá entender que a doença não prejudicou a capacidade de ação de Cadu no atual caso de latrocínio. Sendo assim, ele até poderia ser condenado. Mas, explica Telma, "dada a situação atual da doença, há possibilidade de ser aplicada medida de segurança novamente". Com isso, após três anos, Cadu poderia novamente voltar ao convívio da família e fazer tratamento apenas ambulatorial.

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