Para Lula, centrais são ''oportunistas'' sobre mínimo

Ex-presidente diz que ''colegas'' deveriam seguir regra firmada durante seu governo

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2011 | 00h00

Depois de 37 dias sem falar sobre questões de governo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quebrou o silêncio ontem para chamar de "oportunistas" os "colegas sindicalistas" que defendem um salário mínimo superior aos R$ 545 oferecidos pela gestão Dilma Rousseff. Lula cobrou dos sindicatos a palavra empenhada no acordo firmado em seu governo, que prevê o reajuste do mínimo a partir da soma da inflação anual e do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do ano anterior.

As críticas foram feitas pouco antes de seu discurso como convidado do 11.º Fórum Social Mundial (FSM), em Dacar, no Senegal. Até então, Lula não demonstrava intenção de falar aos jornalistas, mas acabou deixando clara sua insatisfação com os rumos das negociações sobre o salário mínimo ao ser questionado sobre o assunto, na saída do Hotel Terrou-Bi. Lula havia acabado de se encontrar com o presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, e estava a caminho do Fórum Social Mundial.

Lula lembrou a participação dos sindicatos na discussão do acordo que resultou na atual política de reajuste do mínimo. "Isso foi um acordo feito com os dirigentes sindicais quando o (Luiz) Marinho era o ministro da Previdência. Foi combinado que o reajuste seria feito com base no PIB e na inflação até 2023 para que a gente pudesse recuperar definitivamente o salário mínimo."

Na sequência, Lula disparou: "O que não pode é nossos colegas sindicalistas quererem a cada momento mudar as regras do jogo. Ou você tem uma regra, aprova na Câmara e vira lei e todo mundo fica tranquilo, ou você fica como o oportunista".

O ex-presidente também foi irônico ao comentar uma possível antecipação do reajuste projetado para 2012. "Quando a inflação é maior, você quer antecipar; quando o PIB é menor, você quer antecipar", reclamou. E exemplificou: "Se é verdade que nesse ano o PIB mais a inflação ia dar zero, no outro ia dar 8%. Então tem a compensação".

Demonstrando interesse pelo tema, Lula ressaltou mais de uma vez que a norma de reajuste do mínimo não foi estabelecida por seu governo, mas criada em conjunto com as centrais. "Eu penso que seria prudente que os nossos companheiros sindicalistas soubessem que a proposta não é do governo", argumentou. "A proposta é uma combinação entre todos nós. Eu espero que eles façam acordo."

Mediação. Apesar de interessado no assunto, Lula descartou mediar um acordo entre governo e sindicatos. "Não, porque não é tarefa minha conversar. É da Dilma e do Congresso", ponderou o ex-presidente. "O Congresso está lá para tomar conta dessa história."

Questionado se não se sentia à vontade na eventual função de negociador, o ex-presidente disse que não haveria problemas. Mas insistiu não ser necessário. "Me sinto à vontade, porque sou amigo dos dirigentes sindicalistas, somos companheiros", disse Lula. "Mas eles estão conversando com o governo e com o ministro Gilberto Carvalho (secretário-geral da Presidência, que também está no Senegal liderando a comitiva brasileira no Fórum Social Mundial) e acho que vão entrar em um acordo."

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