''Para maioria, perigo não é a maconha, mas polícia e lei''

Especialista americano destaca que termo ''legalização'' das drogas deveria ser usado como ''antiproibição''

, O Estadao de S.Paulo

06 Agosto 2009 | 00h00

A luta contra a proibição passa pela linguagem, avalia Ethan Nadelmann, fundador e diretor da Drug Policy Alliance, organização americana que promove alternativas à política oficial de guerra às drogas. Segundo ele, o termo "legalização", muito usado em campanhas a favor da liberação da maconha, atrapalha. "O discurso pela legalização é visto como pró-drogas, em vez de antiproibição", avalia Ethan, considerado um dos grandes especialistas no tema. "A maconha é droga, sim, e para alguns é um problema. Mas para a maioria o maior perigo não é a maconha, mas a polícia e a lei penal", diz ele. "Hoje vivemos um mito de que as leis são baseadas na Justiça e na proteção da saúde pública, quando na verdade são baseadas na ignorância e no prejuízo." Advogado, Ph.D em Ciências Jurídicas por Harvard e mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, Nadelmann participou ontem do lançamento da pesquisa sobre drogas no Rio. Ele considera 2009 um momento de virada na discussão global sobre drogas. "Na terra de Obama a virada é lenta, porque o movimento é para virar um transatlântico." Em entrevista ao Estado, ele destacou algumas opiniões sobre o assunto. LEIS "O que as pessoas precisam entender é como chegamos à atual situação. A discussão é sobre quem utiliza as drogas. Temos leis há duas ou três gerações e a história da origem delas é esquecida. Leis contra assassinatos, estupros e roubos remontam à Bíblia. Praticamente não existe sociedade em que isso não seja crime. Mas a lei penal que diz que um adulto que vende esse pó ou essa planta será tratado da mesma forma que um estuprador ou assassino não vem da Bíblia. Essas leis são criações recentes. Por que isso aconteceu? Por que houve distinção em relação a álcool e tabaco? Uma comissão de especialistas tomou essa decisão? Não teve nada a ver com danos relativos dessas drogas e tudo a ver com quem usava, ou quem aparentemente usava." BRASIL E OBAMA "Não posso dizer o que vocês têm de fazer. O Brasil foi um dos primeiros a introduzir a distribuição de seringas como política de redução de danos no combate ao HIV. A questão é de engajamento. Os EUA hoje são líderes no uso médico da maconha. O País que vai ganhar o prêmio de referência na política sobre a questão das drogas precisa pegar a linguagem contra a proibição e levá-la à população. É difícil porque o público ainda não entende que a proibição é o problema. Acho que 2009 é o ponto de uma virada. A redução de danos cresce na Ásia. Há defesa da legalização na América do Sul. No futuro, teremos de aprender a conviver com as drogas. E ter uma política que não seja mais baseada no medo, na ignorância e no lucro." USO MEDICINAL "A maconha é usada em 14 Estados nos EUA para fins medicinais. Na Califórnia, se o médico for solidário, se consegue maconha para ajudar a dormir. Algumas pessoas podem rir, mesmo sem estar sob efeito da droga. Mas psicotrópicos são receitados para o mesmo fim. Mudamos a natureza dos debates. A lei existe e o mundo não foi para o inferno. Até o governador Schwarzenegger declarou que o debate sobre a maconha deve ser considerado. Por quê? Por causa da recessão. Com a maconha legalizada, a receita vai aumentar. A melhor forma de cortar o mecanismo do mercado negro é competir com ele. Será que precisamos de um sistema que nos proíba de nossas próprias fraquezas? Precisamos de regulação. Pesquisas com adolescentes mostram que é mais fácil hoje obter maconha do que álcool."F.W.

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