Para menores, família e abrigos tiram a liberdade

"Abrigo não, tia." A reportagem havia perguntado a cinco menores de idade, que dizem viver há sete meses na Praça da República, se gostariam de ir para um dos abrigos da prefeitura. Todos relatavam que saíram de casa por vontade própria. A justificativa: não gostavam de viver com a família. Todos tinham passagem pelos abrigos, mas reclamavam do lugar. Não gostavam da falta de liberdade e de "não ter o que fazer" durante o tempo em que passaram nessas casas. "Chega à noite e você está com a bunda quadrada de tanto ver televisão", afirma Diogo (todos os nomes deste texto são fictícios), de 15 anos, sobre a vida no abrigo. Todo mundo cai na gargalhada. "No Creca (Centro de Referência da Criança e do Adolescente, nome oficial de abrigos do município), a gente fica preso o dia inteiro. Além disso, eu sou viciado em cigarro e lá não pode fumar", emenda o amigo Lúcio, de 17 anos. Para Ivo, também de 17 anos, o bom seria ir para um lugar onde pudesse sair e voltar. "Até faço um curso, vou à escola, mas depois vou ver o ?solzão?". Diogo diz que gostaria de um lugar só para dormir. Gêmeas de 16 anos, Luana e Laura viviam com um irmão em Barueri, Grande São Paulo. "Não gosto, não gosto de ficar em casa", diz Luana. "Aqui é melhor que em casa, meu irmão não deixava fazer nada. E na escola só tem professor chato. Aqui é um pelo outro. Todo mundo sai de casa ou porque os pais bebem ou batem. Tem também alguns que querem cheirar cola", conta Lúcio. Dois colchões e alguns cobertores velhos fazem o canto do grupo. A comida alguém dá, os colchões vieram de um prédio abandonado ali perto, e o banho é no lago da República, conta Ivo. Às vezes, funcionários da obra da Linha Amarela do Metrô emprestam a mangueira e o banho é melhor. "Comprei sabonete", diz Diogo. AVENTURA Para relatar a vida na República, contam empolgados a última lembrança, do jeito de quem lembra de um filme de ação. Na madrugada do feriado de 7 de setembro, um homem foi esfaqueado na praça depois de roubar um morador de rua. Lúcio mostra pingos marrons no shorts. Ele diz que são do sangue do tal homem e conta um pouco envergonhado: "Eu estava com um pedaço de madeira na mão, mas não fiz nada, fugi". Diogo, seu amigo, não concorda: "Ah, se fosse comigo eu iria para cima." Lúcio quer ser fuzileiro ou "aquelas pessoas que ajudam no parto"; Ivo, "bota preta" (soldado); Luana, enfermeira ou veterinária. "Mas não de cachorro, de cavalo e de vaca."

Fabiane Leite, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2010 | 00h00

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