Paulo Vitor/AE
Paulo Vitor/AE

Para moradores, criação de muros não diminuirá violência

Alguns dizem que projeto é segregacionista, mas a maioria vê a instalação de estruturas com indiferença

Pedro Dantas - O Estado de S. Paulo,

12 de março de 2010 | 07h30

A construção da barreira acústica foi recebida com indiferença e repulsa pelos moradores do Complexo da Maré, o conjunto de favelas que será o mais escondido pela proteção instalada pela prefeitura do Rio. "Não houve mobilização contra, pois as casas ficam a mais de 100 metros dos muros, mas todos sabem que é cara de pau dizer que é proteção sonora. O objetivo é proteger os motoristas", disse o estudante de Ciências Sociais e morador da Baixa do Sapateiro, Francisco Valdean, de 29 anos. "A Escola Municipal Bahia fica na beira da Avenida Brasil e nunca recebeu isolamento acústico da prefeitura."

 

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link Rio põe barreiras acústicas na frente de favelas

 

Morador da Vila do João e coordenador do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, Lourenço César da Silva, de 39 anos, acredita que a ideia da barreira é antipática, mas se mostra indiferente. "O barulho nunca foi um problema para a comunidade. Quem mora perto escuta, mas não é nada que tire a concentração", disse Lourenço. "Não sei se sou contra ou a favor da barreira. A única certeza que eu tenho é que esse dinheiro poderia ser investido em coisas mais úteis. Moro na favela e também me sinto inseguro na Linha Vermelha, mas sei que um muro não resolve."

 

O irmão dele, o geógrafo Francisco Marcelo da Silva, de 34 anos, classifica o projeto de segregacionista e diz que a barreira diminuirá a autoestima dos moradores do conjunto de favelas. "Não é a primeira vez que o Complexo da Maré é escondido. Em 1992, um muro foi erguido na frente da Vila do João e até hoje esconde a favela da visão dos motoristas que trafegam pela Avenida Brasil."

 

Francisco acredita que o problema da segurança já poderia ter sido resolvido, pois o Complexo da Maré é o único conjunto de favelas que conta com um batalhão de Polícia Militar. Desde 1989, o 22º Batalhão de Polícia Militar (BPM) está instalado nos fundos da favela e de frente para a Linha Vermelha. Na prática, os policiais patrulham a via expressa e fazem incursões nas comunidades loteadas e disputadas por várias quadrilhas de traficantes.

 

"Quem mora na favela também está exposto à violência. Se um batalhão não garante a nossa segurança nem dos motoristas da Linha Vermelha, um muro será o suficiente?", questionou o geógrafo.

 

Os irmãos moram na Maré desde o tempo em que a favela se equilibrava em palafitas e se tornou conhecida nacionalmente ao ser citada e servir de cenário para o clipe da música Alagados, da banda Paralamas do Sucesso, lançada em 1986.

 

CONFRONTO

 

Ontem, no Complexo da Maré, a rotina de violência seguiu alheia ao debate. Em mais uma incursão na Favela Vila dos Pinheiros, policiais militares do 22º BPM trocaram tiros com traficantes e apreenderam uma carabina calibre 12, uma pistola calibre 45, além de crack e cocaína.

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