Para MP, negligência do Via Amarela pode ter causado mortes na cratera

?É quase impossível que alguém não seja responsabilizado criminalmente?, diz promotor responsável pelo caso

Camilla Rigi e Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

11 de janeiro de 2008 | 00h00

O Ministério Público Estadual (MPE) tem indícios de que houve negligência por parte do Consórcio Via Amarela no desabamento da Estação Pinheiros da Linha 4 do metrô, que matou sete pessoas e completa um ano amanhã. Segundo o promotor responsável pela investigação criminal, Arnaldo Hossepian, até ontem, o consórcio não havia apresentado o plano de emergência previsto para o entorno da estação em caso de um acidente no canteiro de obras. "Estou convencido de que talvez tivéssemos diminuído pelo menos o número de vítimas", disse. "É quase impossível que alguém não seja responsabilizado criminalmente."Em maio, Hossepian fez a reconstituição do percurso do mestre-de-obras no dia do acidente. Calculou que, do momento em que ele foi avisado de que havia uma instabilidade grave no canteiro da estação e correu para ver o que estava acontecendo, passaram-se 4 minutos e 45 segundos. O mestre-de-obras estava no túnel de ventilação na Rua Ferreira de Araújo - a 400 metros da futura Estação Pinheiros - quando foi avisado. De acordo com o promotor, o operário chegou ao local da tragédia 40 segundos antes do desabamento."Não sei dizer se o tempo em que fiz a caminhada e mais aquele que é objeto de apuração, do momento em que o obreiro se deu conta (do problema), era suficiente para que as medidas fossem adotadas a ponto de evitar que o transeunte por lá caminhasse, que o veículo por lá passasse", disse Hossepian, referindo-se aos pedestres e à van engolidas pela cratera. o Via Amarela alegou que o acidente "foi abrupto, com duração aproximada de 1 minuto, impossibilitando a evacuação total". Tanto o consórcio quanto o Metrô afirmam que têm um plano de emergência e o procedimento foi aplicado em duas situações anteriores. A primeira foi em 3 de dezembro de 2005, na Rua Amaro Cavalheiro, quando ruas foram bloqueadas e 17 famílias retiradas de casa. Segundo comunicado do Via Amarela, houve três horas entre a constatação da emergência e o desabamento de uma das casas. A segunda emergência se deu em 18 de abril de 2006, na Rua João Elias Saad, próximo da Estação Pinheiros. No caso, foram removidas sete famílias e não houve desmoronamento. "O plano faz parte do contrato e, quando foi preciso, funcionou. Agora, quem vai dizer se havia tempo para usá-lo é o laudo do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas)", disse o diretor de Assuntos Corporativos do Metrô, Sérgio Avelleda. Ele observou que o acionamento do alarme sonoro estava previsto apenas antes das detonações previamente marcadas.CHECK LISTDesde a tragédia, o esquema de emergência usado na obra foi aperfeiçoado, de acordo com do IPT. Por sugestão dos engenheiros e técnicos encarregados da investigação, criou-se um check list, preenchido e assinado pelo responsável do canteiro. "Havia uma gestão de risco, mas os procedimentos eram muito esparsos", explicou o geólogo Djalma Luiz Sanchez, do MPE.A expectativa dos promotores é de concluir a investigação em meados do ano e entregar acusação formal à Justiça. Além da investigação criminal, o promotor de Habitação e Urbanismo, Carlos Amim Filho, acompanha o desenvolvimento das obras no restante da linha. Dois Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) já foram firmados; por meio de um deles, o consórcio é obrigado a apresentar explicações para os atrasos na liberação do canteiro. Caso os argumentos não sejam aceitos, a multa diária é de R$ 70 mil. Até agora, 73 dias já foram justificados. O laudo do Instituto de Criminalística deve ficar pronto apenas em agosto.FRASESArnaldo HossepianPromotor"Talvez tivéssemos diminuído pelo menos o número de vítimas"Sérgio AvelledaDiretor do Metrô"O plano faz parte do contrato, e quando foi preciso, funcionou. Quem vai dizer se havia tempo para usá-lo é o laudo do IPT"Djalma Luiz SanchezGeólogo do MPE"Havia uma gestão de risco, mas procedimentos eram esparsos"

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