Para multiplicar lucro, PCC loteou fronteira

Facção comprou fazendas no MT para ter contato direto com traficantes da Bolívia; agronegócios serviram para camuflar esconderijo do bando

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

O Primeiro Comando da Capital (PCC) estava loteando a fronteira de Mato Grosso com a Bolívia a fim de assegurar o fluxo contínuo de cocaína para São Paulo. A descoberta foi feita pela Polícia Federal durante a Operação Aracne - investigação iniciada no ano passado e que, na semana passada, levou 41 pessoas para a cadeia sob a acusação de tráfico internacional de drogas. A estratégia da facção, segundo a PF, era estabelecer contato direto com os cartéis bolivianos para eliminar intermediários e, assim, multiplicar seus lucros.Os primeiros indícios eram de que integrantes da facção haviam adquirido fazendas em três municípios mato-grossenses: Campo Novo do Parecis, Tangará da Serra e Nova Maringá. Mas a análise preliminar dos documentos e anotações apreendidos em poder da quadrilha revelou um esquema ainda maior. Ao todo, integrantes da organização criminosa mantinham propriedades rurais em dez cidades - cinco nas proximidades da fronteira (Cáceres, Porto Esperidião, Lambari D?Oeste, Tangará da Serra e Campo Novo do Parecis), duas na região central (Nova Maringá e São José do Rio Claro) e três ao norte (Alta Floresta, Colniza e Aripuanã).As fazendas tinham três funções básicas: parte delas abrigava pistas clandestinas para receber os aviões vindos da Bolívia, outras serviam de armazém e o restante era usado na lavagem do dinheiro obtido com o narcotráfico. Nessas localidades - cinco das dez identificadas até agora pelos federais -, o PCC investia na criação de gado e no plantio de soja. A agropecuária não tinha finalidade econômica para a facção. Servia apenas para camuflar o esconderijo dos traficantes e ocultar os recursos amealhados pela organização.Intensificada nesta década, a migração de integrantes do PCC para Mato Grosso tem objetivo comercial. A cúpula da facção percebeu que ganharia mais dinheiro se aproximando dos principais produtores de cocaína do continente - Colômbia e Bolívia. Estima-se que cada intermediário fora do esquema representa, em média, 20% a menos no preço final da compra. "Como a facção tem acordo para o fornecimento constante de grandes quantidades da droga, conseguiu fechar um preço de ?atacado?", explica o delegado Eder Rosa de Magalhães, mentor da Aracne.Atualmente, diz o delegado, o PCC paga R$ 6 mil pelo quilo da pasta base de cocaína. Após o processo de refino, feito geralmente no local de destino da droga, o volume inicial é multiplicado por três. "Em São Paulo, o quilo da pasta base vale pelo menos o dobro. O lucro da facção é gigantesco", comenta o delegado federal.Na terça-feira, quando será concluído o inquérito da Aracne, a PF pretende indiciar seis cidadãos bolivianos por tráfico internacional de drogas. Eles pertencem aos dois cartéis com os quais integrantes do PCC mantinham "acordos comerciais". Além de desmontar um dos maiores esquemas de compra, venda e distribuição de cocaína do País, a Aracne também serviu para que a PF mapeasse a atividade do narcotráfico na fronteira seca com a Bolívia.Nos últimos anos, o país andino se equiparou à Colômbia na produção de coca. Dois fatores ajudam a explicar o fenômeno: a grave crise econômica enfrentada pelo país e a decisão do governo central de expulsar os agentes do departamento antidrogas dos Estados Unidos (DEA, na sigla em inglês). "A polícia boliviana nos ajudou com algumas informações, mas nota-se que a estrutura de repressão deles é limitada", diz Magalhães. FRASESEder Rosa MagalhãesDelegado da PF"Como a facção tem acordo para o fornecimento constante de grandes quantidades da droga, conseguiu fechar um preço de ?atacado?.""Em São Paulo, o quilo da pasta base vale pelo menos o dobro. O lucro da facção é gigantesco.""A polícia boliviana nos ajudou, mas se nota que a estrutura de repressão deles é limitada."

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