Para Paulinho da Viola, samba do Rio ficou igual ao de SP

Experimente pedir para alguém, que conheça do assunto, fazer uma pequena lista com os maiores sambistas da história. Você vai poder notar que a grande maioria dos citados da suposta e seleta lista já morreu. Mas vai observar também a presença de Paulo César Baptista de Faria ali. É isso. Paulinho da Viola é, aos 64 anos, para muitos, o maior sambista ainda vivo do País. Em entrevista exclusiva e inédita para o Estado, ele topou o convite para um papo aberto e franco sobre o samba de São Paulo. Das limitações às transformações, de Adoniran a Arnaldo Antunes, Paulinho apontou os problemas e acertos que fizeram e fazem a história do samba no País, que passa sim, meu!, por São Paulo. Quais são as diferenças históricas do samba paulista para o samba carioca, na música e no carnaval? Olha, pra falar do samba carioca você tem que levar em consideração uma série de coisas. São Paulo, apesar de ser um centro, talvez hoje o centro mais importante, dividia essa importância com outros centros importantes. E o Rio foi numa época a capital do País. Algumas das maiores instituições de mídias, jornais, revistas, rádio e televisão estavam, de uma certa maneira, centralizadas no Rio. A procura, a chegada de grandes artistas de várias partes do Brasil, muitas vezes se dirigia primeiramente ao Rio de Janeiro. E, no meio disso tudo, São Paulo sempre teve uma dinâmica muito própria. Artistas de lá que eram conhecidos nacionalmente faziam questão de revelar a sua origem. Eu me lembro da minha vó falando da Isaurinha Garcia, uma cantora que tinha um sotaque todo próprio, sabe? De alguma maneira você sabia que ela vinha de São Paulo, ela tinha um traço, uma maneira de cantar que revelava isso. Então existe esta diferença, por exemplo? Não. Porque essa diferença não era acentuada em outros artistas de São Paulo. Mas em alguns, sim. O Noite Ilustrada, que uns dizem ser paulista, outros dizem que era mineiro, é o tipo de artista, aliás, grande sambista, que você percebia uma pequena diferença. Germano Mathias é outro exemplo disso. No jeito de cantar você via que ele era diferente, ele revelava um certo sotaque, um certo jeito, que é muito difícil de ser precisado. Mas você percebia a forte ligação dele com São Paulo, percebia que não era um artista do Rio de Janeiro. E musicalmente? Olha, é importante dizer que muitos sambistas que fizeram sucesso no Rio de Janeiro não eram cariocas. Ataulfo Alves e Geraldo Pereira, por exemplo. Musicalmente, você tem muitas formas de samba, mesmo no samba que era praticado nas escolas do Rio de Janeiro existiam diferenças. Diferenças na forma de tocar, no fraseado. Há exemplos de sambas do Candeia que tem um traço, um desenho melódico, que você identificava na hora que era da Portela. Tinha "o jeitão" da Portela. Isso tinha muito, sabe? Muita gente dizia, "ah, esse samba é a cara da Mangueira". Então, mesmo no Rio, existiam esses andamentos diferentes. A bateria da mangueira mantém até hoje o surdo batendo no tempo fraco da música, todos eles juntos, não tem resposta! Diferente do que era a bateria do Salgueiro, por exemplo. E o samba de São Paulo nisso tudo? Eu me lembro que quando a gente falava do samba de São Paulo, o pessoal mais antigo dizia assim: "ah, aquilo não é escola de samba, aquilo é bloco". Ué, não é escola de samba por quê? "Ah, vê o andamento que eles tocam!" Era mais acelerado? O samba de São Paulo sempre foi mais acelerado que o do Rio. E hoje o do Rio é igual ao de São Paulo! Entendeu? Olha só, eu acho até que os compositores e dirigentes das escolas de samba de São Paulo poderiam dizer claramente isso. "Antigamente eles diziam que a gente corria, que nosso samba era mais corrido. E agora todo mundo corre igual, como é que isso?" Algo como: "então a gente é que estava certo"? Poderiam até ter o direito de levantar isso. Isso foi algo exaustivamente discutido nas escolas, se falou muito disso, tanto que, uma hora, eu parei de falar. Ok, mas em 1975 você gravou "Argumento", que é um samba que dá uma cutucada nessa aceleração, certo? Não, não, não. Deixa eu te explicar. Assim, é um pouco isso, claro. Esse samba vinha de alguns fatos, acontecidos há alguns anos porque, na Portela - e acredito que em outras escolas também - a gente já discutia muito essas coisas (aceleração do samba). Engraçado que gente ia falar das diferenças do samba de São Paulo e caímos nisso, mas é um fio que você vai puxando e não acaba mais. Mas deixa eu falar porque isso é muito importante. Nós tínhamos dentro da Portela pessoas que discutiam isso, a história da escola, o resgate de algumas coisas que estavam se perdendo, tínhamos essa preocupação. E por que essa resistência às mudanças que apareciam? Bem, mudanças como a aceleração no andamento do samba, uns achavam necessários e outros não. Eu me lembro de uma polêmica levantada por um dirigente da Portela logo depois que o Salgueiro apresentou o samba "Pega no ganzê, pega no ganzá", do Zuzuca. O samba fez um sucesso incrível, e era um samba mais curto, que trazia coisas diferentes dos sambas-enredo tradicionais, que eram sambas mais longos, que contavam toda uma história. Alguns discutiam, "isso não é mais necessário, tá muito grande, tem que fazer sambas mais curtos". E a gente argumentava, "não, a única diferença de um samba mais curto pra um samba mais longo é que o samba mais curto vai ser cantado mais vezes na avenida". E se você não altera o andamento é isso que vai acontecer. Deu pra entender? Mas tudo isso acontecia por uma série de fatores... Quais fatores? Por exemplo, muita gente da novíssima geração não sabe que antes não havia controle de tempo de desfile. E muitas escolas - e isso é verdade - às vezes, querendo prejudicar a outra, ficava desfilando durante 3 horas, obrigando a outra a desfilar durante o dia, quando não ia ter o brilho da noite e tal. Essas histórias aconteciam. Então, era preciso, de uma certa maneira, disciplinar um pouco. Eu até concordo que, com tantos interesses se voltando para o carnaval, você tinha que criar uma certa ordem, avançar, mas sem prejudicar certas coisas. Houve um avanço, apareceram novas idéias, houve o fortalecimento dos carnavalescos, muita coisa aconteceu nos últimos anos. Dá para dizer que a aceleração do samba, uma dessas "novas idéias", foi uma contribuição paulista? Aí vamos voltar a falar dos desfiles demorados e do limite menor de tempo. Mas olha, teve muita coisa que mudou em função da necessidade de um andamento mais rápido nos desfiles. E eu não acho que essa aceleração seja uma contribuição de São Paulo para o samba, não nesse aspecto, de contribuição. Até porque, quem viu esses desfiles que não eram muito rápidos, como eu, não aceita muito isso, não. Mas por que era melhor antes? Não é que seja melhor antes. Por exemplo, eu também já vi grandes desfiles com esse andamento mais rápido. Tudo bem. Mas você disse que não aceita muito essa mudança. Olha, isso é uma coisa facilmente explicável. O samba tem alguns caracteres rítmicos que se você não conseguir executá-los, não é samba. Por exemplo, você tem um compasso binário, dois tempos, 1, 2; 1, 2. Quando você vê uma escrita de um samba característico, uma das coisas que dá essa característica é exatamente a síncopa. A síncopa - e mesmo quem não conhecer música vai entender - é uma nota que é antecipada ao tempo forte ou fraco - normalmente é ao tempo forte - do compasso. E no samba acelerado... Isso é impossível. É impossível a execução. Ou seja, não se faz samba hoje em dia. Não, não, não. Não é isso. Se faz um samba diferente, talvez. E não é aquele que eu acho o ideal por causa dessa coisa da correria. O que aconteceu com isso? Chegou num ponto, assim, estava tão acelerado, que os próprios dirigentes resolveram dar uma freada nisso. Se não, não dava. Na prática isso é muito simples. Se você pegar um tamborim e fizer isso, ó. (Nesse instante, Paulinho pega um livro e improvisa um batuque, mostrando a síncopa. Ao acelerar o mesmo batuque, ela some e o som muda nitidamente). Esse "molejo", esse "balanço", a "malemolência", esses termos usados pelos autores e críticos antigos, o sujeito dizia, "faltou a malemolência", então, na verdade o cara tá querendo falar da síncopa. Essa coisa que faz o cara cantar de um jeito e tocar de outro. Pois bem, e isso é impossível num andamento acelerado. É impossível. E, no meu modo de ver, isso quebrou uma coisa fundamental que é um samba mais melodioso, mais dançado, que emocionava. Mas eu, hoje, compreendo que a emoção se dá num outro nível para as pessoas. Isso eu faço questão de dizer. A coisa do visual, da alegria, da beleza, isso tudo não deixa de ser uma vibração. Eu não sou saudosista, não quero voltar pra trás. E São Paulo seria um pouco o "culpado" disso? Não, eu acho que não. Pra mim é difícil falar porque hoje eu nem acompanho os desfiles das escolas. Às vezes vejo um desfile de São Paulo pela televisão e tal, mas eu precisaria estar mais presente, acompanhar mais de perto para poder opinar melhor. E a história do samba, lá no início... passa por São Paulo? Eu não sei dizer isso. Como eu disse, existem várias formas de samba. Várias formas de manifestação popular, dos negros, em regiões diferentes e de maneiras diferentes. Eu sei que o pessoal fala muito em São Paulo do samba de Pirapora (Pirapora do Bom Jesus, na Grande São Paulo). Mas a repressão com os negros, com o povo do samba, quando eles queriam manifestar sua cultura nas ruas era a mesma em São Paulo? Eu não sei como era. Nunca ouvi ninguém falar isso em São Paulo. Aqui no Rio eu posso te dizer um pouquinho porque ouvi gente da antiga dizer pra mim, "Paulinho, pra gente acender uma vela na rua tinha que ter um aparato, porque se a polícia pegasse era um desastre". E aí eu tô falando da década de 1910, hein, talvez até antes. E como era isso em São Paulo? Como eu posso falar disso sem conhecer direito como essa repressão se dava em cima dos negros lá? Você tem que levar tudo isso em consideração. A gente pode ir levantando essas coisas toda para uma comparação e avaliação futura. Mas se eu tentar resumir isso em uma frase ou a um conceito é um risco. Você mencionou, no início da entrevista, de um sotaque paulista no samba. Isso existe ainda hoje? Outro dia eu conversei com o Gudin (Eduardo Gudin) e falei: "Gudin, talvez você não perceba, mas eu acho que posso mostrar uma frase de um determinado samba seu que me leva a imaginar que você foi influenciado, mesmo que você não tenha percebido, pelo samba de Adoniran." E quando eu percebi isso, imediatamente me ocorreu um verso que fiz para uma música dele. Sai antes do dia amanhecer/Deixei Adoniran me consolar. Ele gravou recentemente esse samba (Sempre se pode sonhar). Eu vejo a música do Gudin muito próxima da linhagem do Adoniran. Muitos sambistas de São Paulo reclamam que, na década de 60, quando faziam algum sucesso, tinham que ir pro Rio, porque em São Paulo não o havia espaço. Por que isso acontecia? Como eu já disse, talvez o Rio, por reunir as grandes instituições da mídia brasileira, atraísse grandes músicos de São Paulo. Então vamos de Garoto. Nascido em São Paulo em 1915, ele chegou a vender 700 mil cópias de um disco com o samba que fez para quarto centenário da cidade, em 1953. É, para alguns, o precursor da Bossa Nova, antes mesmo de João Gilberto. E muita gente sequer sabe que ele existiu. Se ele fosse carioca, seria mais conhecido? Com certeza Garoto foi um dos precursores da Bossa Nova, eu me incluo nesse "alguns". E essa música para o quarto centenário de São Paulo era um maxixe, eu me lembro bem. Agora, Garoto. Garoto tocava bem vários instrumentos, exímio instrumentista, é difícil dizer. Tem essa coisa da música instrumental que hoje cresceu muito, mas nem sempre foi assim - e mesmo hoje falta espaço. Mas não acho que Garoto seria mais conhecido se fosse carioca, não. Acho que ele seria mais conhecido se não tivesse morrido tão cedo. Noel Rosa morreu cedo também. Sim. Mas muita gente hoje, muita gente mesmo, você pode perguntar, vai dizer: "Ah, Noel Rosa, é um grande compositor". Ah é, então canta três samba dele, aí! Bem capaz de não saber. Se você fosse fazer uma relação dos dez maiores compositores da história do samba, esta lista teria sambistas paulistas? (Longo silêncio). Olha, eu não sei responder essa pergunta pra você. Seria pretensioso da minha parte fazer isso. É muito difícil fazer uma relação de dez grandes compositores de samba. Eu não sei. Se você me pergunta assim, "você incluiria o Cartola nessa lista?", eu diria, "incluiria". E pára por aí? É porque... é tanta gente boa, é tanta gente, que você se surpreende. Mas há chances desta lista ser formada por dez cariocas? Dez cariocas? Não, não. Ataulfo (Ataulfo Alves) para mim foi um dos grandes compositores de samba, e era mineiro (risos)... Mineiro do interior! Mas eu não faço isso, é muito pretensioso. Ah, e tem um grande compositor paulista que, papai conheceu, o Malfitano. Francisco Malfitano. Eu gravei uma música dele: Mente ao meu coração/que cansado de sofrer/só deseja adormecer/na palma da tua mão. É que, como eu já disse, grandes músicos brasileiros, mesmo não sendo cariocas, vieram para o Rio de Janeiro. Com Ataulfo, Lupicínio (Lupicínio Rodrigues), todo mundo foi pro Rio. "O teu coração sem amor, se esfriou, se desligou Inté parece, Pafunça, aqueles alevador Que está escrito ´não funúnça´, e a gente sobe a pé! E pra me judiar, Pafunça, Nem meu nome tu pronunça." Este é um trecho do samba "Pafunça", do paulistano Adoniran Barbosa. O que você acha disso? Ah, eu acho bonito pra caramba. É lindo. Eu gosto, eu acho muito bonito. Não sei fazer um juízo disso. Essa coisa do trato com a língua, usando um certo humor, sabe? Isso tem mais em São Paulo do que no Rio. Porque, não é um deboche. É humor. Adoniran era muito irreverente, sagaz, divertido. Contribuiu muito para o samba como um todo. E a origem disso tudo merecia um estudo mais aprofundado, eu sempre digo isso. Você sempre resgatou e gravou sambas antigos, popularizando ainda mais nomes como Nelson Cavaquinho, Zé Kéti e Wilson Batista. Além da qualidade desses sambistas, há algum motivo para esse resgate? Esses autores foram muito prejudicados durante muito tempo. É só ver um pouco da história deles, muitos venderam sambas, e isso tudo tá muito ligado às dificuldades de vida que essas pessoas tiveram. E olha, eu não sou ufanista, mas sempre que teve um movimento na música brasileira, o samba foi o primeiro a tomar a pancada. Eu ouvi tanta gente dizer "a gente tem que acabar com essa velharia". Mas são coisas que não podem ser esquecidas. Mas é claro que teve aí, nesse resgate, também um pouco da minha paixão, do fato de eu ser um menino criado no meio de músicos, de ouvir choros desde criança, grandes sambas, esse universo todo. E por que nunca apareceu em um disco seu um samba de Paulo Vanzolini, de Geraldo Filme ou de Adoniran Barbosa? Olha, primeiro não é pelo não reconhecimento da importância deles. Mas era tanta gente e há tantos compositores que eu poderia ter gravado e não tive essa oportunidade. Você não tem idéia do que eu tenho aqui de fitas K7 que pessoas me mandaram ao longo desses anos. Mas especificamente esses 3 nomes mais famosos de São Paulo. Por que nenhum samba deles apareceu em nenhum disco do Paulinho? É porque você tem determinadas afinidades também. Eu, por exemplo, já cantei samba do Ataulfo que eu não gravei. Uma vez ouvi um samba dele com o Ismael (Ismael Silva) no rádio do carro e fiquei apaixonado. Não sei quando foi gravado, mas andei em sebo atrás desse disco, e eu não sabia o nome da música, não sei, talvez tenha sido umas das últimas músicas que eles tenham gravados. E, se eu pudesse ter essa samba e gravar... Porque eu acho que para gravar alguma coisa não basta você gostar. Teve coisa que eu ouvi do Lupicínio que estava tão bem gravada por alguém, ou por ele mesmo, eu não me sentia cantando essa música. É por aí. Tem muita coisa do Cartola... Por exemplo, As rosas não falam, eu fui umas primeiras pessoas a ouvir essa música e eu só fui cantá-la no meu show do Bebadosamba, em 1997. Paulo Vanzolini é um sambista branco, de formação acadêmica, e que mesmo com essa retaguarda, cantou São Paulo sem fugir de um samba de raiz. História parecida com a de Noel Rosa. Dá pra traçar um paralelo entre esses sambistas, um de São Paulo, outro do Rio? Não sei. A verdade é que eu nunca parei pra pensar nisso. O que eu poderia dizer é que Noel foi um grande sambista, um grande compositor, talvez um dos maiores. E Paulo Vanzolini também. É o que eu poderia dizer. Um dos grandes sambistas da Portela, grande compositor e tudo, é o Casquinha. E aí diziam, "pô! Casquinha, filho de alemão, que tem a ver isso com o samba?". Isso é uma bobagem. Porque a coisa do compositor, do criador, do sambista, passa pelo afeto, pelo amor à cultura popular. É isso. E os nomes mais recentes desses exemplos, como Tom Jobim e Chico Buarque. Qual a diferença no processo de criação desses músicos mais eruditos, para os mais populares, como Cartola no Rio, e Geraldo Filme em São Paulo? Tom se dizia um sambista. Mesmo não estando ligado diretamente a nenhuma escola, ele se intitulava como sambista. E muitos admiradores do próprio Tom podem não concordar com isso (risos). Mas eu acho que todos os processos de criação são diferentes, e eu não estou querendo aqui relativizar nada. Mas o processo de cada um é diferente, e isso talvez seja o mais importante. Tom, Chico, Vanzolini, são artistas, cada um com as suas manifestações dentro das suas circunstâncias, e dentro disso eles são excelentes, assim como Geraldo. Até muito pouco tempo, ser sambista em São Paulo não dava dinheiro - mesmo os grandes nomes tinham que ter um emprego formal, com ordenado no fim do mês. E no Rio, também era assim? Sim, no Rio também era assim. Todos os sambistas tinham outras atividades, até porque o preconceito contra o artista era muito grande. Eu trabalhei em banco e achava que ia enveredar por uma outra carreira, até que apareceu essa coisa da música pra mim - graças a Deus. Quando você passou a viver só do samba? O que possibilitou essa virada? Até ser reconhecido eu morava na casa do meu pai, dificuldade sempre teve. Eu fui aos pouquinhos, tocando aqui, ali, gravando alguma coisinha. Tive o meu primeiro disco solo gravado em 68, mas já tinha feito um disco com o Elton Medeiros. Mas logo em 69, eu participei de alguns festivais, onde lancei algumas músicas, inclusive Foi um rio que passou em minha vida, na feira da Tupi. Depois, no último festival da Record, eu saí vencedor com Sinal Fechado. Esse foi um momento muito importante pra mim, ali o meu nome ficou mais conhecido. Porque Foi um rio que passou em minha vida foi divulgado como um samba de um compositor da Portela. Eu ainda não era um cantor reconhecido, era tudo muito recente. E essa coisa dos compositores cantarem suas músicas ganhou muita força com os festivais. Entre o seus principais parceiros estão Elton Medeiros, Sérgio Natureza e Capinam. Já teve algum parceiro paulista? Parcerias foram muitas, Hermínio Belo de Carvalho, Salgado Maranhão, mas desses, o Elton é o mais constante realmente. Agora, parceiros paulistas.... Tenho tido parceiros novos também, o Arnaldo Antunes é meu parceiro agora. Fizemos um samba, até cantei no ano passado, na Fecap (Teatro Fecap, no bairro da Liberdade), lá em São Paulo. Ah é? E alguém gravou esse samba? Não, não. Mas eu quero gravar. Vou gravar. Foi uma brincadeira, começou assim, eu falei pra Marisa (Marisa Monte), "olha, eu vou deixar uma melodia aqui, mas de brincadeira tá, e você diz assim: ´Arnaldo, o Paulinho deixou um samba aqui beeem antigo pra você botar uma letra´". E ele foi e colocou. Topou o desafio, e o samba tá aí. Em 2003 você recebeu da Câmara Municipal de São Paulo o título de cidadão paulistano. Como foi isso? Nossa, isso pra mim, assim, foi um gesto de carinho tão grande... Olha, eu vou ser sincero, eu não esperava que fosse uma coisa assim, até pelo período e horário em que aconteceu, eu não esperava que aquilo fosse estar tão cheio. Foi o pessoal da Nenê de Vila Matilde, me levaram presentes, muitos discursos que me emocionaram, eu tenho fotos e tudo, nossa, coisas que falaram de mim que eu nem me lembrava, foi muito legal isso tudo. E que você é portelense não se discute, não é novidade. Mas, e em São Paulo, alguma predileção por alguma escola de samba? Olha, tem duas escolas assim que, quando eu falo das escolas de São Paulo, me vem à cabeça. Uma foi a Nenê de Vila Matilde. Eu fui com Clementina (Clementina de Jesus) lá, no começo dos anos 80, e a gente foi muito bem recebido, fizemos uma apresentação lá e tudo, foi uma coisa muito legal. E, a outra, por afinidades de amigos que são muito ligados lá, é a Vai-Vai, que é também uma das mais antigas. Essas são duas escolas que eu tenho um carinho, mas não estou desfazendo das outras, por favor, não é isso. Para finalizar a entrevista, vamos tocar numa polêmica mais atual. Recentemente, membros da diretoria da Império de Casa Verde, escola bicampeã do carnaval de São Paulo, foram identificados como pertencentes à facção criminosa PCC. Ainda que isto seja um fato isolado, este tipo de episódio pode abalar o samba dentro da escola, abalar o samba em si? Não. Minha resposta é não.

Agencia Estado,

17 Fevereiro 2007 | 19h37

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