Para polícia, ossada encontrada é a de Tim Lopes

A polícia não tem mais dúvidas de que a ossada encontrada na manhã desta terça-feira, no alto da Favela da Grota, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio, é a do jornalista Tim Lopes, da Rede Globo. Ele desapareceu na noite do dia 2, quando investigava denúncias de exploração sexual de menores e de tráfico de drogas em um baile funk da favela Vila Cruzeiro, na Penha, zona norte."A essa altura não tenho mais dúvidas. Gostaria de ter. Pelo material encontrado, os indícios são fortes demais", declarou a delegada Alice Fraga, da 22.ª DP (Penha). "Todos os indícios levam à essa afirmação", confirmou o secretário da Segurança Pública, Roberto Aguiar, para quem há 99% de chances de os ossos serem do repórter. A polícia encontrou a ossada em uma cova rasa, ao lado do campo de futebol da associação de moradores e a 50 metros de um lago que a polícia acredita ser um cemitério clandestino. Um crânio perfurado à bala e pedaços de arcada dentária foram localizados, além da carcaça de uma microcâmera. A partir de uma plaqueta patrimonial numerada (117.985), a Rede Globo confirmou que o equipamento era o mesmo usado por Lopes quando desapareceu. A lâmina de um facão, um cordão com crucifixo e os restos de um relógio e de uma pochete estavam enterrados na mesma cova. Todo o material estava queimado. Uma camisa cuja descrição corresponde à da que o repórter vestia também foi achada.Segundo a polícia, Lopes foi esquartejado e seu corpo, queimado no local. Ao lado do buraco em que a ossada foi enterrada havia sinais de uma fogueira e uma pedra com marcas de machadadas. "O corpo estava totalmente cortado, talvez até por machado. Os ossos estão muito fragmentados. Houve um sacrifício brutal", disse o investigador Daniel Gomes, da 22.ª DP. Questão de honraPara ele, o traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, acusado de ser o assassino de Lopes, dificilmente será preso com vida. "Se ele reagir à prisão, certamente não será preso vivo. Sabemos que ele é perigoso e a polícia dará uma resposta à altura do tratamento que ele dá às suas vítimas."O chefe de Polícia Civil, Zaqueu Teixeira, disse que a captura de Elias Maluco é uma questão de honra, mas não quis estabelecer prazos. "Vamos prendê-lo. Vocês podem cobrar", afirmou. Desde o dia 4, o Disque Denúncia já recebeu 118 telefonemas dando conta do paradeiro do bandido. Há informações de que ele estaria fora do Estado, mas, segundo Roberto Aguiar, caso seja verdade, isso não impedirá sua prisão. Ontem, Gomes afirmou que o traficante, segundo denúncia anônima, teria fugido de carro para a Bahia.A informação sobre o local onde a ossada foi enterrada chegou à polícia na manhã de ontem e, segundo o chefe de Polícia Civil, Zaqueu Teixeira, veio de um morador da favela. Cães farejadores da 6.ª Companhia Independente da Polícia Militar de Cães (CIPM Cães) indicaram o ponto exato. "O Mike deu o sinal. Ele sentiu algum odor e começamos a cavar", disse um PM, referindo-se a um cão labrador de 2 anos de idade. O material humano encontrado foi levado para o Instituto Médico Legal e será submetido à exame de DNA. O dentista de Lopes foi convocado para identificar a arcada dentária. Os restos de objetos foram para o Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE). Na 22.ª DP, peritos recolheram impressões digitais no Pálio branco que teria sido usado para transportar o repórter até o local da execução.A prefeitura decretou luto oficial por três dias na cidade e programou a leitura de textos sobre a importância da liberdade de imprensa nas escolas e repartições públicas municipais. Na Assembléia Legislativa, houve ontem uma homenagem ao repórter da Globo. O Grupo Tortura Nunca Mais divulgou nota em que condena o assassinato do jornalista e defende que "os diferentes órgãos envolvidos no combate à chamada violência cumpram suas funções legítimas, que assegurem o respeito absoluto aos preceitos constitucionais e aos direitos humanos de todos os moradores de nosso Estado."

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