Para psicólogos, não há sofrimento maior que matar o filho

Se o luto de um pai que perde o filho já é considerado um dos mais complexos e dolorosos, muitos especialistas ficam com a voz embargada ao comentar o pesadelo que foi vivido pelo biólogo Ricardo César Garcia, de 31 anos, que esqueceu o filho de 1 ano e 4 meses dentro do carro na quinta-feira, 12. O menino, que ficou cinco horas dentro do veículo, teve uma parada cardiorrespiratória e morreu. ?Sinceramente, não sei o que falar num momento como esse?, diz a psicóloga e terapeuta familiar Lídia Aratangy. Para Miguel Ângelo Perosa, professor da faculdade de Psicologia da PUC-SP, é difícil imaginar um sofrimento maior do que o vivido por um pai responsabilizado pela morte do próprio filho. ?Talvez não exista algo pior para o ser humano?, diz ele, não só como especialista, mas também como pai de duas garotas e um menino. ?O filho tem depositado nele a realização dos sonhos dos pais, principalmente por dar um sentido de imortalidade ao progenitor. Destruir tudo isso é destruir parte de si mesmo.? A rotina apertada e a pressa do dia-a-dia podem explicar um pouco a ocorrência de fatalidades como a de quinta. ?Tem muita coisa que a gente faz no piloto automático?, explica a psicanalista e escritora Maria Rita Kehl. ?Nosso cotidiano é todo articulado e às vezes não percebemos quando acontece algum imprevisto ou quando algo sai fora da rotina. Um exemplo é não notar que uma rua virou contramão e, mesmo assim, pegá-la. Não podemos simplesmente achar que esse pai é um monstro irresponsável.? O biólogo Ricardo César Garcia afirmou, em depoimento à polícia, que o acidente teria sido causado pela quebra de rotina. Todas as manhãs, ele, a mulher e o filho saíam de casa cedo, de carro - o pai deixava a criança em uma creche, depois dava carona para a mulher e ia para o trabalho. Na quinta, ele entrou de férias e a criança ficaria com ele durante o dia - e não na creche. ?Houve um lapso de memória. Ele esqueceu que a criança estava no carro. Isso não é incomum num mundo estressante como o de hoje?, diz o psicoterapeuta e professor da PUC-SP Antonio Carlos Amador Pereira, pai de quatro filhos e avô há apenas seis meses. ?Parece banal, a pessoa tranca a porta do carro e esquece. Acontece com mais freqüência do que a gente imagina, infelizmente. Não penso nisso como negligência e sim como fatalidade.? Explicações para a tragédia, no entanto, não devem atenuar o sofrimento de Garcia. ?A dor é absoluta, nenhum tratamento nem ninguém consegue retirar a culpa que ele deve estar sentindo neste momento?, diz Miguel Perosa. ?Esse sentimento pode seguir pelo resto da vida. Só ele conseguirá se perdoar.?

Agencia Estado,

13 Abril 2007 | 11h23

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