Para secretário de Segurança, Reali Junior não manda no Rio

O secretário da Segurança Pública do Estado, Roberto Aguiar, reagiu hoje de forma enfática ao anúncio da criação de uma Força Tarefa para combater a criminalidade no Rio, feito na véspera pelo ministro da Justiça, Miguel Reale Junior: "Ninguém manda no Rio de Janeiro. O Rio é um Estado autônomo e o Brasil é uma República Federativa. É inversão da ordem democrática. Não aceito imposições."Aguiar ressaltou que considera "muito importante" a colaboração entre os governos federal e estadual, mas disse que não vai aceitar imposições - a proposta foi anunciada ontem sem consulta prévia ao Estado. "Ninguém vai botar a mão no meu Rio de Janeiro. Nós temos que colaborar, dialogar, juntar forças, mas sem nos subordinarmos a ninguém".O secretário insinuou ainda haveria interesse político na criação da Força Tarefa. "Todo ato é político. Agora, há políticas boas e políticas más. Então estou tentando ler que essa seja uma política boa, para nos ajudar a minorar efetivamente a violência no Rio. Todo ato político pode ter um aspecto perverso ou um aspecto maravilhoso", declarou. "Se já estamos integrados com a Polícia Federal, que novidade isso traz? Seria um discurso político, seria apenas uma solidariedade vaga?Ele anunciou que na segunda-feira o Estado vai apresentar ao governo federal uma pauta com dez páginas de pedidos de colaboração na área de segurança, invertendo a proposta inicial feita pelo ministro. "Quando a gente colocar o que quer, vamos ver se eles respondem. A primeira ajuda é entrar na nossa pauta. Temos uma pauta precisa de que tipo de necessidades a gente tem com relação ao Exército, à Marinha, à Aeronáutica, à Receita Federal, à Polícia Rodoviária Federal e à PF", disse. "Acho que essa Força Tarefa tem a grande vantagem de unir para evitar picuinhas burocráticas. Vamos colocar o que a gente precisa. Se eles fizerem, quero agradecer previamente".ConsensoO superintendente da Polícia Federal no Rio, Marcelo Itagiba, afirmou que a Força Tarefa poderia apresentar resultados positivos em seis meses e disse que a posição inicial da governadora Benedita da Silva (PT), que num primeiro momento chegou a descartar a possibilidade de colaboração, pode ser revertida. Ele discordou da forma como a questão foi colocada. "Acredito que essas questões serão melhor analisadas e avaliadas pelo Estado. Tenho certeza de que chegaremos a um consenso." Aguiar disse que o governo do Estado tinha dúvidas em relação à proposta porque não sabia do que se tratava - "Nos deram um pacote que poderia ter um ovo de Páscoa ou uma bomba", disse. "A pauta é nossa em função do conhecimento que nós temos da questão criminal no Rio, mas estamos de braços abertos."Numa crítica à atuação de órgãos federais, o secretário afirmou que os problemas do Rio partem de fora do Estado. "Não conheço nenhuma fábrica de armas e refinadora de cocaína no Rio. Isto é: (os problemas) vêm de outras vias, por isso precisamos de colaboração", disse ele.Segundo ele, as Forças Armadas e as polícias têm "missões absolutamente diferentes", mas Exército, Marinha e Aeronáutica podem colaborar em projetos sociais e em termos tecnológicos e de logística. "Não queremos as Forças Armadas nas ruas, seria um desvio de função."ApoioO presidente interino da República, Marco Aurélio de Mello, reafirmou hoje que traficantes ocupam o espaço criado pela ausência do poder público nas favelas do Rio. "Não me permito ser ingênuo, os fatos são notórios", disse ele, em entrevista no Palácio do Planalto. Mello já havia feito comentário semelhante ontem, o que provocou reação do secretário de Segurança Pública do Rio, Roberto Aguiar. Segundo o secretário, não são os traficantes, mas o povo carioca e o governo que estão no poder - a despeito da opinião de autoridades do Judiciário que "não conhecem a questão da segurança" no Estado.Presidente do Supremo Tribunal Federal, Mello substitui interinamente, até terça-feira, o presidente Fernando Henrique Cardoso, que está na Europa. "O que se verifica é que o espaço aberto no campo social é ocupado de forma nefasta, de forma danosa por terceiros", disse Mello. "E terceiros delinqüentes."O presidente interino comentou que as ações policiais nos morros cariocas reproduzem uma "guerra". "O que ocorre quando a polícia precisa subir o morro? Ela praticamente já sobe atirando", afirmou. Mello lembrou já ter sido colega de Aguiar na Universidade de Brasília (UnB). "Confio no poder público do Estado do Rio de Janeiro. Confio nas forças de segurança desse Estado e estou certo que elas estão bem capitaneadas pela governadora Benedita (da Silva) e pelo técnico e sensível homem público que é o doutor Roberto Aguiar", concluiu o presidente.

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