Para Unicef, falta vontade para resolver crise da Febem

A Febem gasta R$ 250 milhões por ano para maltratar adolescentes num sistema carcerário que caminha para consolidar o modelo repressivo. Também é um símbolo de que falta vontade política de resolver o problema. Quem diz é o oficial de projetos do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Mário Volpi.Especialista em atendimento a adolescentes em conflito com a lei, ele acha que, apesar de a Febem ter um discurso pró-Estatuto da Criança e do Adolescente e alguns bons projetos, sua trajetória é contrária ao que preconiza a lei. "Falta de dinheiro não é, de capacidade técnica em São Paulo também não pode ser. Deve haver então ganhos políticos que justifiquem manter uma instituição desse tamanho, com regionais em todo o Estado."Para Volpi, promotores e juízes têm de ser mais enérgicos e a diminuição no número de procuradores de Assistência Judiciária que faziam defesa de adolescentes comprova tese de que a Febem não caminha para a solução. Volpi lembra ainda que uma instituição de recuperação de adolescentes não tem motivo para se fechar, "a não ser esconder algo errado".Para o presidente da Associação Brasileira de Magistrados da Infância e da Juventude, Rodrigo Enout, como é fechada, a Febem se torna autoritária e violenta. "Eles se acham auto-suficientes e não querem se relacionar." Já a professora e especialista em Psicologia das Relações Humanas da Universidade de São Paulo, Sueli Damergian, analisa os problemas da fundação pelas conseqüências que um tratamento violento e inadequado de adolescentes infratores, que já têm normalmente um histórico complicado, podem representar para a sociedade. "Nunca na minha vida ouvi falar que violência gere amor. Violência gera aumento da violência e maus-tratos geram desejo de devolver. Só Cristo reagiu com amor à violência." A professora explica que uma instituição como a Febem acaba reforçando o modelo de violência, exclusão social, falta de oportunidades e desrespeito à dignidade que a maioria dos jovens teve desde o nascimento. A assessoria da Febem reafirma que todos os internos estudam, têm atividades esportivas, profissionalizantes e culturais na fundação. Também diz que não se pode julgar o trabalho feito em 57 unidades com base num caso isolado (de maus-tratos em Parelheiros), que já foi apurado e teve sete funcionários afastados. "A direção da Febem não compactua com qualquer prática de violência e está aberta às entidades dispostas a visitar suas unidades."

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