Parada inflaciona preços da balada gay

Ingressos de boates, bebidas e até estacionamento ficam mais caros

William Glauber e Gustavo Miranda, O Estadao de S.Paulo

22 de maio de 2008 | 00h00

Uma onda inflacionária atinge o preço dos ingressos das principais casas noturnas gays de São Paulo de hoje até domingo. É o efeito Parada Gay, que acontece domingo na Avenida Paulista. Para se divertir nas pistas de dança da capital, os freqüentadores vão desembolsar até R$ 120 neste sábado - uma variação de 140% se comparado aos R$ 50 cobrados em uma noite comum na The Week, na Lapa, zona oeste. O público reclama do chope, refrigerante, estacionamento, flat mais caros. A associação responsável pela Parada deu nome ao fenômeno: é o "homo-oportunismo". As casas rebatem e dizem que investem pesado para trazer novidades."Os GLBTs (gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis) desta cidade já estão pagando mais caro pela cerveja. São ?homo-oportunismos? do mês da Parada", crava o coordenador do Mês do Orgulho Gay, Manoel Zanini, responsável pelo evento deste ano. Sem alternativas aos preços, há gays e lésbicas que desistem de festas. "Eu não vou, por causa do preço. A minha namorada queria ver o Offer Nissim (DJ israelense que se apresenta no sábado na The Week), mas me recuso", afirma a advogada Isabel Camargo, de 30 anos. "Em um boteco na Rua Augusta, costumava pagar R$ 2 por um refrigerante. Agora, paguei R$ 3. O preço sobe porque os gringos (turistas) vêm com dólar e euro", diz ela.E os gringos, como o americano Peter Rauhofer e Offer Nissim, dois DJs queridinhos do público gay, também fazem as contas em dólar ou em euro. E essa é a razão para o elevado preço do ingresso na The Week, explica o empresário André Almada. "Eu me recuso a falar que exista inflação. Existem custos adicionais, vinda de artistas internacionais, passagens de avião, cachê de DJs. Tudo isso tem um custo muito alto para o clube", justifica. A expectativa, apesar das reclamações, é de lotação máxima. Almada não revela quantos ingressos foram vendidos desde abril, quando o primeiro lote de entradas foi comercializado por R$ 80. O convite fica mais caro à medida que a Parada se aproxima, diz Almada, para evitar superlotação. O supervisor de vendas César Fioli, de 26 anos, recém-chegado de Porto Alegre (RS), não vai recuar pelo preço dos ingressos. "Não tem jeito. Se não quiser balada ruim, vai ter de pagar caro e ainda enfrentar lotação", diz. Baladeiro, Fioli ainda não decidiu onde vai passar as próximas noites.Douglas Martins, de 20 anos, no entanto, não tem dúvida: vai encarar as baladas mais caras. "Comprei os ingressos antecipados. Estou no Brasil só para curtir a noite de São Paulo, que é o que a cidade tem de melhor", conta o salva-vidas de um parque aquático na cidade de Caltamisseta, na Itália. Mas ele também reclama. "Um mês num flat custaria em média R$ 2 mil. Há quem agora cobre R$ 4,5 mil." Após a Parada, que ele não vai perder, na Avenida Paulista, embarca de volta para a Europa.A presença dos DJs americanos Mario Calegari e Eric Cullemberg também encarecem a festa de amanhã da Flex, na Barra Funda - de R$ 35 para até R$ 60. Elevar o preço da entrada não é oportunismo para o empresário Rodrigo Zanardi. "As pessoas vêm a São Paulo por causa da Parada e pela cultura noturna. Trabalho com esse público, não é oportunismo", diz. A Cantho, no centro, ajustou as entradas. No sábado, dia mais caro, o ingresso sobe de R$ 25 para R$ 30. O estacionamento - terceirizado, ressalta o produtor Hugo Vaz - subiu de R$ 10 para R$ 13 há uma semana. Na danceteria A Lôca, a entrada de hoje será de R$ 35, ante os habituais R$ 25, para coibir a superlotação em feriados.JUSTIÇAA Liga Cristã Mundial, uma entidade que reúne representantes de diversas religiões cristãs, tentou sem sucesso barrar a realização da Parada Gay na Paulista. Em um documento de 25 páginas, protocolado no Ministério Público Estadual na tarde de anteontem, a associação afirma que a Parada atrapalha o trânsito, não tem segurança e causa constrangimento a crianças, adultos e idosos. O Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu arquivar o pedido ontem. FRASESManoel ZaniniCoordenador do Mês do Orgulho Gay"Os GLBTs (gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis) desta cidade já estão pagando mais caro pela cerveja. São homo-oportunismos do mês da Parada"Isabel Camargo Advogada"Em um boteco da Rua Augusta, eu costumava pagar R$ 2 por um refrigerante. No fim de semana, paguei R$ 3. O preço sobe porque os gringos vêm com dólar e euro"André AlmadaDono da boate The Week"Eu me recuso a falar que exista inflação. Existem custos adicionais, vindos de artistas internacionais, passagens de avião, cachê de DJs. Tudo isso tem um custo muito alto"

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