Parada vira palanque eleitoral

Ao contrário dos outros anos, organização não divulgou número de público, mas multidão na Paulista indica recorde

O Estadao de S.Paulo

26 de maio de 2008 | 00h00

Todos os anos, o número de participantes do maior evento de São Paulo, a Parada do Orgulho GLBT, gera polêmica entre a Polícia Militar, a organização e os próprios participantes. Nesta 12ª edição, porém, o dado ainda é uma incógnita. "Como a gente soube que a polícia não iria calcular (o público), a gente também não calculou. Mas acredito que teve mais de 3,5 milhões de pessoas", disse Alexandre Santos, presidente da associação que organiza a Parada. Quem compareceu à Avenida Paulista ontem não tem dúvidas: o evento parecia mais lotado do que nunca. De olho no colorido mar de eleitores, três dos principais candidatos à Prefeitura de São Paulo - o prefeito Gilberto Kassab (DEM), a ministra do Turismo, Marta Suplicy (PT), e a vereadora Soninha(PPS) tentaram conquistar votos durante o evento. Veja galeria de fotos da paradaPelo segundo ano consecutivo, Kassab abriu oficialmente o evento às 12h54, logo após participar do lançamento de um selo que será concedido a estabelecimentos que dispensam bom tratamento aos gays. "São Paulo nunca abraçou a discriminação. Aqui ocorre o perfil de boa convivência de todas as comunidades, raças e religiões", disse Kassab na sede da Fecomércio.A candidata do PT, Marta Suplicy, presente em outras edições, chegou bem cedo, logo após o prefeito abrir o evento. Do alto do trio elétrico do Ministério do Turismo, a ministra, em ritmo de campanha, distribuiu sorrisos e beijos antes de ser ovacionada por parte do público. Marta estava ao lado da senadora Fátima Cleide (PT-RO), relatora do projeto de Lei 122, do Senado, que quer tornar a homofobia crime, e da deputada Cida Diogo (PT-RJ)."O turismo gay é um segmento significativo economicamente, ter um marco regulatório é essencial para atrair mais turistas desse segmento", disse Marta, destacando que a Parada deste ano atraiu 327 mil turistas para a cidade de São Paulo, 5% deles estrangeiros. Ela ainda defendeu a aprovação da lei em trâmite no Senado contra a homofobia. Marta foi embora por volta das 16h30.No corpo-a-corpo com o público ou no camarote da Mix Brasil, a vereadora Soninha também aproveitou o evento para divulgar que é candidata à prefeita, e não a um novo mandato na Câmara Municipal. "Na Parada, muitas pessoas vieram perguntar se eu sairia candidata à vereadora de novo, e quando falei que sou candidata à prefeita, a recepção foi muito legal, empolgante", contou a ex-petista, que só não participou na primeira edição do evento, em 1997. "Achei o evento bem familiar. Venho todo o ano tanto na Parada como na caminhada das lésbicas no dia anterior."A edição deste ano pode ter gerado (ou manter por ainda um ano) uma média de 13,5 mil empregos diretos e indiretos, e mobilizado 52 setores da economia. De acordo com a SPTuris, o segmento hoteleiro da região da Paulista tem cerca de 85% de ocupação desde o início da semana. Segundo pesquisa da SPTuris feita no ano passado, o perfil do público da Parada é equilibrado entre homens e mulheres, e predominam os participantes entre 25 e 39 anos (39,5%), seguido pelos de 18 a 24 anos (39%). Entre os entrevistados, 49% se declararam homossexuais; 37% heterossexuais; 8,6% bissexuais e 1,4% transexuais.NO MEIO DA MULTIDÃOÀs 14 horas, o sol estava forte e a Parada, só no começo, com as cenas impagáveis que São Paulo acompanha uma vez por ano. Uma drag queen de cerca de 40 anos dançava diante do Parque Trianon, toda montada, com um tubinho feito de grandes escamas prateadas, ao lado da mãe, uma senhora de cabelos brancos e vestido de chita, sentada à sombra de um árvore, segurando os acessórios brilhantes do filho.Na era do celular com câmera, travestis e drags ganham status de estrelas, não conseguem dar dois passos sem ter de tirar uma foto. São de todos os tipos, das bonitas - capazes de enganar o jogador Ronaldo, vestidas de Carmem Miranda, demônias -, às de mais idade, barrigudas, nem por isso menos montadas, de vaquinha, fio dental, tudo o que têm direito. Travestis com os seios de fora e homens de cueca também são figurinhas carimbadas.Os PMs, com seus uniformes, também causavam alvoroço. Era comum que o público gay pedisse para tirar fotos com eles. Negavam, educadamente. Menos sorte teve o guardinha do metrô, escalado para organizar a fila do lado de fora da Estação Consolação. Com seu uniforme negro, virou alvo de homens e mulheres, que até lhe passaram a mão.Neste ano, a parada foi mais organizada. Os 22 trios que desfilaram na Paulista seguiram fielmente os horários. Às 18 horas, a Polícia Militar já iniciava o processo de liberação da Paulista para os carros, mas uma multidão ainda descia para a Praça Roosevelt, pela Consolação. Perto de escurecer, o ambiente se torna decadente. Os banheiros químicos são ignorados, e o público usa as ruas. Na rampa antimendigo da Paulista, quem usava o lugar para fazer xixi podia ser visto pela multidão debruçada no vão livre da avenida. Ainda sob o sol forte, porém, uma freqüentadora da Parada desde 2005 definiu o evento."É um lugar onde homem se veste de mulher, mulher se fantasia de homem e ninguém acha estranho", disse, ao lado dos pais, Isabela Prada, de apenas 9 anos. BRUNO PAES MANSO, DIEGO ZANCHETTA, NAIANA OSCAR e VALÉRIA FRANÇA

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