Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

Paraty e Ilha Grande ganham título inédito e viram patrimônio mundial

Trata-se do 1º bem brasileiro inscrito na categoria de sítio misto, ou seja, cultural e natural – e 1º da América do Sul; proposta abrange seis municípios de Rio e SP e inclui reservas ambientais e comunidades indígenas, quilombolas e caiçaras

Flávia Milhorance* e Roberta Jansen, Especial para o Estado

05 de julho de 2019 | 10h02
Atualizado 05 de julho de 2019 | 23h14

PARATY – Paraty e Ilha Grande, no Rio, foram reconhecidos nesta sexta-feira, 5 como patrimônio mundial pelo comitê da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), durante reunião no Azerbaijão. Agora, são 22 bens brasileiros na lista dos sítios de excepcional valor universal. O local é o primeiro bem brasileiro inscrito na categoria de sítio misto, ou seja, cultural e natural – e também o primeiro da América do Sul

O novo patrimônio abrange um território de quase 149 mil hectares, que reúne o centro histórico de Paraty e quatro grandes áreas de conservação ambiental: Parque Nacional da Serra da Bocaina, Parque Estadual da Ilha Grande, Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul e a Área de Proteção Ambiental de Cairuçu, envolvendo, ao todo, seis municípios de Rio e São Paulo. “Nós, orgulhosamente, voltamos para casa com esse título na bagagem”, afirmou a presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogéa.

Paraty e Ilha Grande receberam o título, em grande parte, pela interação da presença humana com o ambiente natural. Ali, testemunhos culturais incluem o centro histórico de Paraty, ainda bem preservado, uma parte do antigo Caminho do Ouro – por onde escoava o minério de Minas – e comunidades vivas – duas terras indígenas, dois territórios quilombolas e 28 comunidades caiçaras.

Essas comunidades tradicionais mantêm os modos de vida de seus antepassados, preservando a maior parte das relações culturais, incluindo ritos, festividades e religiões.

Com cerca de 85% da cobertura vegetal nativa bem conservada, a área abarcada pelo sítio misto forma o segundo maior remanescente florestal de Mata Atlântica do País, com muitas espécies raras e endêmicas.

Foi a terceira vez que Paraty disputou o título. Na primeira, em 2004, não seguiu critérios formais. A segunda candidatura, em 2009, foi rejeitada pelo comitê da Unesco após recomendação do Icomos, conselho associado à ONU que avalia a inscrição. Desta vez, no entanto, o conselho deu sinal verde, mas sinalizou desafios a serem superados pela candidatura.

“Essa última candidatura era a mais robusta”, garante a arquiteta e urbanista do Iphan Candice Ballester, envolvida no processo. “Foi uma candidatura muito ousada”, completa o professor de Geografia da UFRJ Rafael Winter, membro do Icomos Brasil. Apenas 38 dos 1.092 bens inscritos da lista da Unesco são mistos, a tipologia menos usada. 

Por isso a candidatura demandou pareceres técnicos do Icomos, avaliando o bem cultural, e do IUCN, natural. “Mas fez muito sentido juntar os elementos centrais que compõem aquela área, que são a cidade histórica de Paraty e a natureza da Baía da Ilha Grande”, afirma Winter.

Problemas

Além de dificuldades na formulação da candidatura em 2009, Paraty perdeu credibilidade com seu baixo índice de saneamento. O esgotamento sanitário chegou a apenas 56,4% da população da cidade em 2010. O sistema de água e esgoto foi novamente citado pelo Icomos como um dos “principais desafios” da candidatura neste ano. Há também pressões relativas ao aumento desordenado do turismo em uma cidade que já enfrenta intensa violência urbana – a taxa de homicídio por arma de fogo foi de 60,9 por 100 mil pessoas em 2016, entre as 50 maiores do Brasil, conforme o Mapa da Violência. 

A concessionária Águas de Paraty destacou que a implementação do sistema de esgotamento sanitário depende de repasses financeiros do Estado e de um convênio da Eletronuclear, mas chegou a 100% de oferecimento de água potável. Já a Secretaria de Estado da PM destacou uma queda de 22% nas ocorrências de roubo na região no primeiro trimestre. 

A secretária de Cultura de Paraty, Cristina Maseda, reconhece os entraves urbanos, mas acredita que a vitória trará investimentos para a região. “Abre possibilidade de financiamentos nacionais e internacionais.” Paraty recebe hoje entre 350 mil e 450 mil turistas por ano – 30% deles do exterior.

Repercussão. “Agora que temos esse carimbo da Unesco, a tendência é atrairmos um turismo maior e mais qualificado”, disse dom João de Orleans e Bragança, bisneto da Princesa Isabel, que reside em Paraty, onde mantém vários negócios, como uma pousada e uma imobiliária.

Já para o diretor-geral da Festa Literária de Paraty (Flip), o arquiteto Mauro Munhoz, o evento deste ano, que começa na quarta-feira, será especial. “Teremos uma festa.”

 

 

O Brasil já tem 21 locais com o reconhecimento, entre sítios culturais e naturais. Veja quais são: 

Patrimônios Mundiais do Brasil

Sítios do Patrimônio Cultural:

1980 - A Cidade Histórica de Ouro Preto, Minas Gerais

1982 - O Centro Histórico de Olinda, Pernambuco

1983 - As Missões Jesuíticas Guarani, Ruínas de São Miguel das Missões, Rio Grande de Sul e Argentina

1985 - O Centro Histórico de Salvador, Bahia

1985 - O Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, Minas Gerais

1987 - O Plano Piloto de Brasília, Distrito Federal

1991 - O Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, Piauí

1997 - O Centro Histórico de São Luís do Maranhão

1999 - Centro Histórico da Cidade de Diamantina, Minas Gerais

2001 - Centro Histórico da Cidade de Goiás

2010 - Praça de São Francisco, na cidade de São Cristóvão, Sergipe

2012 - Rio de Janeiro, paisagens cariocas entre a montanha e o mar

2016 - Conjunto Moderno da Pampulha

2017 - Sítio Arqueológico Cais do Valongo

Sítios do Patrimônio Natural

1986 - Parque Nacional de Iguaçu, em Foz do Iguaçu, Paraná e Argentina

1999 - Mata Atlântica - Reservas do Sudeste, São Paulo e Paraná

1999 - Costa do Descobrimento - Reservas da Mata Atlântica, Bahia e Espírito Santo

2000 - Complexo de Áreas Protegidas da Amazônia Central

2000 - Complexo de Áreas Protegidas do Pantanal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

2001 - Áreas protegidas do Cerrado: Chapada dos Veadeiros e Parque Nacional das Emas, Goiás

2001 - Ilhas Atlânticas Brasileiras: Reservas de Fernando de Noronha e Atol das Rocas

(Fonte: Unesco)

(A data é relativa ao ano em que foram considerados patrimônios culturais)/COM EFE

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