Parecer da Sabesp faz Dersa mudar Rodoanel

A oposição ao traçado do Rodoanel Mário Covas, antes restrita a ambientalistas, chegou a órgãos do governo do Estado. A empresa Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa) está providenciando ajustes no projeto original, principalmente nos trechos norte e sul, depois de ter recebido, no mês passado, pareceres desfavoráveis da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e do Instituto Florestal (IF).A Dersa pretende iniciar as obras neste ano pelo trecho sul - que une as Rodovias Régis Bittencourt, Imigrantes e Anchieta. Na quinta-feira, começam as audiências públicas que vão discutir o projeto e fazem parte do processo de licenciamento ambiental dos trechos sul, norte e leste, que têm custo estimado em R$ 5 bilhões.Elas já foram adiadas duas vezes. A polêmica deve ser grande. O motivo principal apontado pela Sabesp e pelo IF para se oporem ao plano é a proximidade do empreendimento das áreas de captação de água que abastecem cerca de 60% da região metropolitana de São Paulo e a interferência na natureza, ao atravessar locais preservados, como a Serra da Cantareira.No projeto original, por exemplo, no trecho norte a estrada vai passar em cima do ponto de captação da Sabesp na Represa Paiva Castro, do Sistema Cantareira. "A partir dessa observação da Sabesp, vamos desviar uns 400 metros do traçado inicial. A passagem será feita por viaduto em linha reta, com defensa lateral de 2 metros de altura, redutores de velocidade, sinalização reforçada e um sistema de drenagem que impeça acidentes com carga perigosa", garante o coordenador de Gestão Ambiental do Rodoanel, Rubens Mazon, professor da Fundação Getúlio Vargas.Técnicos da Sabesp, no entanto, ainda consideram esse traçado arriscado e lembram que a obra vai cortar cerca de 60 cursos d?água que alimentam o reservatório. No caso de um caminhão tombar, produtos tóxicos podem parar na represa por meio deles, alertam. A companhia ainda mostrou outros pontos sensíveis, como dois braços da Paiva Castro, o Concremix e o Guido, onde pode ocorrer assoreamento durante a obra do anel viário.Para o Instituto Florestal, além da questão da água, é preocupante a possibilidade de o empreendimento incentivar a ocupação na área. Segundo a Dersa, um estudo encomendado pela empresa a professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo aponta que o impacto deve ser de menos de 2% em relação ao que já existe.O IF alega ainda que são necessários cuidados para que a movimentação de animais na região da Cantareira não seja prejudicada. No projeto, está previsto o corte de 592,7 hectares de vegetação nos três trechos do anel viário, a ser compensado com o plantio de 1.185,4 hectares, com 987.833 mudas e criação de nove unidades de conservação.O Rodoanel terá 174 quilômetros de extensão, ligando dez rodovias, quando estiver concluído. No ano passado foi inaugurado o trecho oeste, de 32 quilômetros. Os outros três - de 142 km no total - estão em processo de licenciamento ambiental conjunto.Na semana passada, o governador Geraldo Alckmin confirmou a intenção de usar o leito dos trechos norte e sul do anel viário para a construção de tramos do Ferroanel, destinado a tirar da capital o tráfego ferroviário de carga.As audiências só terminam em março. O resultado tem de ser avaliado ainda pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema). Se a Secretaria do Meio Ambiente autorizar, a próxima etapa é a contratação do projeto executivo.No trecho sul, prioritário por causa da sua ligação, por meio das Rodovias Anchieta e Imigrantes, com o Porto de Santos, o principal fator complicador é a proximidade com a Represa Billings, na região do ABC, mais uma vez num ponto de captação de água. "No braço do Riacho Grande deve haver ajuste no traçado, no projeto executivo, num trecho de 1.200 metros, para evitar assoreamento em virtude da obra. Além disso não serão feitos aterros, por se tratar de área de proteção de mananciais, só cortes de morros para apoiar os viadutos", afirma o coordenador do Rodoanel.Em todo o trecho, onde houver riscos, serão construídos ainda muros de pedra, com mantas internas, para evitar a passagem de qualquer tipo de material, e bacias de contenção de cargas perigosas. "Se ocorrer um acidente a drenagem utilizará túneis que conduzirão a caixas de contenção independentes da drenagem natural."São algumas das medidas que já foram adotadas na obra de porte inaugurada mais recentemente no Estado, a nova pista da Rodovia dos Imigrantes.A Dersa já está trocando informações com a concessionária da Imigrantes, a Ecovias, sobre medidas ambientalmente corretas adotadas na rodovia.O presidente da Ecovias e conselheiro do SOS Mata Atlântica, Irineu Meireles, diz que o projeto não interferiu nos mananciais. "Desmatamos 40 vezes menos do que na primeira pista, que destruiu 1.600 hectares. E, para cada árvore abatida, outras dez da mata nativa foram plantadas, em colaboração com o Instituto Florestal, com quem montamos um viveiro.""A empresa criou inovações ambientais adotadas pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento como referência mundial para concessão de financiamento para futuros projetos no Brasil e no exterior", disse Meireles.Para evitar a poluição e contaminação dos mananciais foram construídas quatro estações de tratamento de água dos túneis, filtrando as impurezas das águas drenadas ou utilizadas na obra, impregnadas de cimento. "Além disso, instalamos dutos no entorno dos viadutos e dos túneis para a captação de qualquer líquido nocivo que possivelmente possa vazar de veículos ou em casos de acidentes." Esses dutos lançam os produtos em caixas especiais de tratamento.

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