‘Parei minha vida. A culpa é toda dele’, diz vítima de estupro em MS

Mulher de 22 anos deu entrada na Casa da Mulher Brasileira após ser violentada em Campo Grande no ano passado

Paula Maciulevicius, Especial para o Estado

29 Maio 2016 | 05h00

CAMPO GRANDE - “Foi em 18 de setembro de 2015. Não tem como esquecer.” Aos 22 anos, a auxiliar de produção foi estuprada dentro de casa, em Campo Grande. A rotina era sempre a mesma: trabalhar o dia todo na metalúrgica e de lá seguir para o turno da noite do curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Naquela dia, depois de voltar para a quitinete, fez o jantar, limpou a casa e só estava tirando o lixo quando o agressor apareceu. Ela é uma das vítimas de Mato Grosso do Sul, Estado com a maior taxa de procura por atendimento na rede pública de saúde após um caso de violência contra a mulher - 37,4 a cada 10 mil habitantes.

“Ele me abordou como se fosse um guarda de rua. Estava todo de preto, de colete e me pediu informação. Só que ele estava armado”, conta.

Em uma motocicleta, ele esperou a estudante se aproximar, desceu então do veículo e, sem tirar o capacete, mostrou a faca. “Ele colocou tão rápido no meu pescoço. Eu pensei: é só um assalto”, diz. 

Ao entrar no conjunto residencial, o agressor indicou a porta e a estudante teve a impressão de que ele já sabia onde ela morava. “Ele trancou a porta e me ameaçando disse para eu não gritar, não falar nada. Pôs a mão na minha boca, usava luvas e entrou no meu quarto.”

Da mochila, ele tirou um pano, rasgou e, com uma perna segurando a vítima, amarrou os pés e as mãos da jovem. “Ele queria dinheiro, vasculhou a minha casa e depois veio praticar o ato”, conta. “Eu não vi o rosto. Se tivesse visto, ele tinha me matado. Ele disse que ia embora, soltou as minhas pernas e falou que, se eu fizesse barulho, ia voltar.” As palavras de ameaça nunca lhe saíram da cabeça.

Entre pausas para retomar o fôlego e narrar sua história, a auxiliar conta o quanto sentia medo de ser vítima de violência sexual. “Era a única coisa que eu tinha medo. Eu sempre temia e foi acontecer justamente na porta da minha casa?” Homossexual assumida, ela deixou a casa dos pais por vontade própria e, desde os 13 anos, morava só.

Quando conseguiu se desamarrar, ainda sentia que estava se arriscando, mas precisava pedir ajuda. “Fui bater em uma vizinha, ela que me socorreu. Chamou a polícia. Me levaram para o posto de saúde, depois para prestar depoimento e para fazer o registro na Casa da Mulher Brasileira”, conta.

Prisão. O agressor foi preso em outubro, acusado de cinco estupros com o mesmo modo de atuação. Ao saber da prisão do estuprador, a vítima conta que foi procurá-lo em uma rede social. “Vi o perfil dele, a foto. Ele tem dois filhos, uma delas menina. Até então, ele tinha mulher.” A auxiliar de produção acompanhou de perto as investigações. “Meu celular e o DVD da minha casa foram achados com ele.”

Foram dez sessões de acompanhamento psicológico na Casa da Mulher Brasileira. Ela decidiu parar com os medicamentos recentemente por conta própria, porque sentia que eles a dopavam. A matrícula na escola foi interrompida. E o trabalho também ficou no passado. “Eu ia terminar meus estudos. De repente chega alguém e tira tudo, como quem puxa um tapete.”

Culpa, isso ela não carrega. “A culpa é inteiramente dele. Nenhum tipo de agressão se justifica, ainda mais contra a mulher. Parei a minha vida por causa disso. E a gente, que passou por essa situação, sofre novamente porque a mente trabalha lembrando disso. Toda vez que vejo alguém comentando um crime, já me coloco no lugar."

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