Parentes ameaçam agredir repórteres durante enterro de Uê

Parentes do traficante Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, morto quarta-feira na rebelião de Bangu 1, ameaçaram de agressão repórteres e fotógrafos hoje de manhã, no cemitério do Caju, durante o velório do criminoso e de três comparsas assassinados no motim desta semana. Carlos Alberto da Costa, o Robertinho do Adeus, Wanderlei Soares, o Orelha, e Elpídio Rodrigues Sabino, o Robô, foram enterrados no mesmo horário, no cemitério São Francisco Xavier, no Caju.Um advogado de Uê, que não disse o nome, serviu como emissário do recado. Segundo ele, os familiares determinaram que não fossem registradas fotos nem filmagens, "para garantir a integridade física" dos jornalistas. Parentes do traficante já haviam agredido duas vezes com socos e tapas a repórter fotográfica do jornal Folha de S.Paulo Ana Carolina Fernandes - na quarta-feira e na quinta -, quando ela tentava fazer imagens do grupo. Diante das ameaças, a imprensa acompanhou o cortejo e o enterro à distância, sem entrar no cemitério.Cerca de 300 pessoas foram ao local, a maioria - aproximadamente 200 - para homenagear Uê, para quem foram dedicadas 14 coroas de flores. Nem a presença da Polícia Militar, que destacou 60 homens para a área do cemitério, serviu para intimidar os presentes à cerimônia, iniciada às 11h30. Agentes do serviço secreto da PM (P-2) que estiveram no local, à paisana, foram aconselhados pelos próprios companheiros da corporação a não filmar ninguém, para evitar piorar o clima já tenso. Pelo menos sete membros da P-2 acompanharam o evento com o objetivo de identificar integrantes de facções criminosas.Muitos dos que acompanhavam o cortejo escondiam o rosto com as mãos ou com a camisa quando passavam perto de fotógrafos e cinegrafistas. Um homem discutiu com um cameraman quando este gravava imagens dele retirando o caixão de Robertinho do Adeus do carro funerário. Quatro ônibus - três de carreira e um de luxo - levaram a maioria dos presentes à cerimônia.Entre as mensagens escritas nas coroas de flores mandadas por amigos, uma do traficante Paulo César Silva dos Santos, o Linho, aliado de Uê e principal líder do Terceiro Comando, que está solto: "Saudades do amigo fiel. Linho". Outra comparava o traficante a Jesus Cristo. "Ernaldo, nem Jesus Cristo escapou."Mensagens de favelas como a do Muquiço, da Pedreira, do morro do Dendê e da Vila do João também louvavam o traficante da facção Amigos dos Amigos (ADA), executado por inimigos do Comando Vermelho (CV), liderados pelo também traficante Luis Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Uê recebeu tiros e foi queimado vivo durante a rebelião. A perícia encontrou seu corpo completamente carbonizado. Ele era inimigo de Beira-Mar e havia sido jurado de morte desde que comandara o assassinato de Orlando da Conceição, o Orlando Jogador, em 1994, e abandonara o Comando Vermelho.

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