Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Paróquia no Brasil põe na prática acolhimento proposto pelo papa

Posicionamento de Francisco aumentou aceitação a gays e divorciados nas igrejas

Ocimara Balmant, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

13 Março 2018 | 03h00

Joana do Nascimento, de 44 anos, e Cícero de Lima, de 51, estão juntos há uma década e há cinco anos têm participação ativa na paróquia que frequentam, no extremo sul de São Paulo. Os dois atuam em encontros de casais. Além disso, ele colabora como pedreiro na manutenção do templo e ela é responsável por algumas leituras da missa. Mas ficam de fora do momento máximo da celebração: não podem comungar porque Lima é divorciado da primeira

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O casal reúne documentos e junta economias para custear o processo de nulidade do matrimônio dele para, então, se casar na Igreja e comungar.

Em uma paróquia vizinha, a pouco mais de três quilômetros dali, Luís e Saulo cantam semanalmente na missa, com o consentimento do padre local, mas também não participam da hóstia por viverem em uma união homoafetiva.

“É claro que dá vontade de comungar, mas já ficamos felizes de poder servir na Igreja. Pensei que, como a gente mora junto sem ser casado, nunca deixariam. Mas assim que Francisco se tornou papa, veio o convite”, diz Joana.

Segundo teólogos, esse tipo de presença – como a de divorciados e de casais homossexuais – nas paróquias mostra como, em geral, a Igreja Católica no Brasil tem entendido o discurso de acolhimento do papa, que completa cinco anos de pontificado nesta terça-feira, 13. “O que ele prega é que, antes de vermos o que há de diferente, a Igreja se firme no que nos une, que é o amor ao próximo. É a grande reviravolta”, analisa Francisco Borba Ribeiro Neto, do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “No fundo, ele não propõe valores ou ideias diferentes dos antecessores, mas um posicionamento diferente”, afirma.

O grande desafio, diz Borba, é fazer com que toda a comunidade se converta ao posicionamento do papa. “É uma questão de reler os conflitos de outra forma. Onde essa capacidade já está dada, o caminho flui com facilidade. Mas há um grupo minoritário – mais barulhento do que numeroso – que se contrapõe a isso, porque fez a própria trajetória na linha da relação agressiva com o diferente.”

Primeiro passo

Quem sente as sutilezas da segregação torce para que o acolhimento seja só um primeiro passo para a aceitação irrestrita, mesmo que isso leve tempo. “Não é possível sustentar uma igreja que não condiz com a realidade de vida. Não há acolhimento pela metade. Se você deixa a pessoa participar da missa, mas não da comunhão, está segregando, discriminando”, diz Loreano Goulart, um dos coordenadores da Pastoral da Diversidade Sexual de São Paulo.

Na capital paulista, o grupo existe há quase dez anos. É formado por cerca de 200 pessoas – entre gays, lésbicas, transexuais e transgêneros – que se reúnem quinzenalmente para reuniões e missas, em que todos podem comungar.

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Um dos padres que acompanham o grupo é o frade franciscano José Francisco. “Rezo uma missa normal, para pessoas normais, que passaram por catequese e fizeram eucaristia. Como qualquer missa, há quem se considere digno e participa da comunhão, e outros que não comungam. É uma decisão de foro íntimo.”

O frade argumenta que, no Ocidente, a compreensão doutrinária e a visão catequética é muito direcionada à sexualidade. “As pessoas não se escandalizam com exploração humana, são capazes de tirar o último centavo do outro e não entendem que isso é uma relação pecaminosa. São os temas sexuais que causam escândalo e sempre vão para o confessionário.”

Só as reações ao surgimento das pastorais da diversidade sexual dão mostra disso. Em São Paulo, apesar de se autodenominar “pastoral” e receber acompanhamento de padres, o grupo ainda não é reconhecido pela Cúria como uma pastoral.

Há pelos menos duas outras iniciativas no país ligadas oficialmente à Igreja. A Diocese de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, criou a Pastoral da Diversidade no fim do ano passado, com anúncio feito pelo próprio bispo da região, Dom Luciano Bergamim. O religioso tem sido atacado por grupos conservadores nas redes sociais.

Em Belo Horizonte, a ideia é anterior: a pastoral nasceu em meados de 2016 e teve como inspiração uma fala de Francisco de um ano antes, quando afirmou que a Igreja deveria pedir perdão pela forma como trata os homossexuais.

“O papa entende que a Igreja deve ser como hospital de campanha, lidar com as periferias existenciais do ser humano”, resume Loreano, da pastoral da diversidade de São Paulo. “Se não for assim, não é religião, se torna um clube em que para ser sócio tem de ser hétero, casado só uma vez e mais o tanto de exigência que decidir elencar.”

Depoimento

Tyago Queiroz , 31 anos, supervisor de operações

“Frequento a mesma paróquia desde criança e sempre fui o mais religioso de casa. Na adolescência me dei conta de que era gay, mas só fui assumir mesmo aos 22 anos. Nesse tempo, passei por um longo processo de autoaceitação e, pasmem, quem me ajudou nisso foi o próprio padre.

Quando o jovem descobre que pode ser que seja gay, a gente acha que é um problema espiritual. Eu mesmo achava que estivesse doente e não era mais digno de dar catequese para os adolescentes. Procurei o padre Paulo Bezerra (pároco há 35 anos da Igreja Nossa Sra. do Carmo, em Itaquera), e ele me disse que não havia nada de errado comigo. Eu só precisava de um processo de aceitação.

Hoje, sou casado e frequento com o meu marido as missas dominicais. Sei que sou um privilegiado. O normal é você começar sendo coroinha, depois tocar na banda de música e, quando se torna adolescente, todo mundo se dá conta de que você é viado mas finge que está tudo bem. A partir do momento que você se assume e sai do armário, automaticamente a liderança o veta de todas as atividades.

Imagina o sofrimento. Eu nasci católico, se mudasse de religião, não iria me encontrar. Até cheguei a ir a uma igreja gay protestante e, apesar de ali serem todos gays e eu não sofrer nenhum preconceito, não me identifiquei. Gosto da doutrina da minha Igreja, dos meus dogmas de fé. Nem eu nem nenhum outro gay católico pretende mudar de religião, só não entendemos porque a espiritualidade tem de ser sempre confrontado à sexualidade. Por que é tão difícil para os próprios cristãos agirem com inclusão e amor?”

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