Parque do Belém: obras em 2 meses

Área onde funcionou o complexo Tatuapé da Febem ganhará Escola de Circo com enorme tenda colorida

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

10 Julho 2009 | 00h00

Durante a década de 1990 e o início dos anos 2000, o complexo do Tatuapé da Febem (atual Fundação Casa), na zona leste de São Paulo, virou sinônimo de rebelião - na pior temporada, em 2005, 18 revoltas de internos eclodiram na unidade, com espancamentos, fogo em colchões, funcionários feitos de reféns. A situação levou à desativação total do complexo, em outubro de 2007. Quase dois anos depois, com o início das obras do prometido Parque do Belém, que funcionará no local, essa imagem vai começar a mudar. O primeiro equipamento cultural a ser construído ali, a Escola de Circo do Estado de São Paulo - uma tenda colorida da altura de um prédio de 10 andares e capacidade para 1,2 mil lugares, com projeto doado pelo governo da França - já tem recursos destinados (R$ 5 milhões, custeados pela Secretaria da Cultura) e cronograma de obras definido. Em setembro, a obra começa a sair do papel, com data de inauguração prevista para junho de 2010. A Escola de Circo - projetada pelo escritório francês Construire, criador da renomada Escola Nacional de Artes do Circo da França, uma das mais respeitadas do mundo -, com 4,6 mil metros quadrados de área, será aberta à comunidade e terá cursos gratuitos para iniciantes e de aperfeiçoamento para profissionais. "Será a maior escola do gênero do País, instalada num local que merece ter sua memória refeita", disse o secretário de Estado da Cultura, João Sayad. "A estrutura será dividida ao meio, com um mezanino, que permitirá aulas de trapézio para profissionais, que podem aproveitar todo o espaço, e para iniciantes, que poderão avançar progressivamente", disse. Haverá aulas para cerca de cem alunos, em oficinas e workshops diários, além de apresentações circenses "no mínimo quinzenais", segundo Sayad. "As arquibancadas serão móveis, o que permitirá aumentar ou diminuir o espaço para as montagens, dependendo do que o grupo circense precisar", disse. O processo licitatório para instalação de outros equipamentos do Parque do Belém, sob responsabilidade da Secretaria de Economia e Planejamento do Estado, deve ser lançado ainda neste mês. Na primeira fase do projeto, estão previstas quadras esportivas, playground e ciclovia, além da área administrativa. O término das obras no parque também está previsto para junho de 2010. Outro projeto previsto para o local é a reutilização da estrutura do antigo Reformatório das Meninas, prédio da década de 1930 totalmente em ruínas, onde será instalada a sede do programa Fábricas de Cultura, que oferecerá cursos de dança, teatro e música, além de espetáculos gratuitos à comunidade. No total, serão nove centros, em distritos carentes de São Paulo (Cidade Tiradentes, Itaim Paulista, Sapopemba e Vila Curuçá, na zona leste; Brasilândia, Cachoeirinha e Jaçanã, na zona norte; Capão Redondo e Jardim São Luís, na zona sul). Segundo a Secretaria da Cultura, as obras devem ser finalizadas até o final de 2010. ABANDONO Embora cerca de um terço do Parque do Belém - 80 mil metros quadrados -, esteja aberto para a comunidade desde abril do ano passado, a sensação é de que se trata de um local abandonado. Desde maio, quando terminou o contrato de uma frente de trabalho que cuidava de varrição e jardinagem do parque, não há pessoal destacado para limpar o local, segundo a equipe que o administra provisoriamente, da Companhia Paulista de Obras e Serviços. As ruínas do antigo reformatório das meninas hoje serve como abrigo para mendigos e usurários de drogas, como admitem os próprios vigilantes que cuidam do local. "Tem uma favelinha aqui ao lado e o pessoal corre para cá, quando rouba alguém ou quer usar drogas. Nem sabemos direito o que fazer", disse um vigia. As ruínas servem, também, como moradia para quem conheceu o local em outra época. Ex-interna da Febem, a doméstica Maria Marlene de Araújo, de 46 anos - nas suas contas, viveu no local entre 1975 e 1981-, escolheu as ruínas para morar há sete meses, quando perdeu o emprego. Lá, conheceu usuários de crack. "Já conhecia a pedra da rua. Quando encontrei o pessoal aqui, voltei a usar", disse. Ela se alegra ao saber que um parque será construído ali. "Gostaria de conseguir um emprego, vendendo doces, algo assim. Mas antes tenho de ir para clínica de recuperação." Os vigilantes do Parque, porém, afirmam que não há moradores no local e que não podem impedir ninguém de entrar no parque. Em relação à limpeza do local, a Secretaria de Economia e Planejamento afirma que, enquanto o processo de licitação não é finalizado, "a limpeza é realizada por equipe da própria secretaria". A poda do mato será feita pela Secretaria da Agricultura, "que só não realizou o serviço nos últimos dias em razão das chuvas".

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