Parque do Trote pode ser cercado por 34 torres

Projeto prevê prédios de 18 andares ao lado de área a ser tombada em SP

Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2008 | 00h00

Aberto ao público em julho de 2006, o Parque do Trote, área verde de 200 mil metros quadrados na Vila Guilherme, zona norte de São Paulo, poderá em breve ser cercado por 34 prédios de 18 andares, divididos em um conjunto de cinco blocos. O projeto da Vivenda Nobre Incorporadora para a construção do maior empreendimento imobiliário da capital, com 2.166 imóveis de 110 m² a 245 m², está sob análise da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) e já provoca reação adversa na população vizinha, no conselho gestor do parque e em urbanistas, contrários a prédios com mais de 25 metros de altura (de oito a dez andares) em uma área em processo de tombamento desde 2004.Na planta apresentada à Prefeitura, o terreno que será ocupado pelo condomínio terá 171.560 m² e ficará em parte do espaço onde hoje funciona o atacadista de moda Mart Center, na Avenida Guilherme. Pelo projeto, entre o parque e a maior parte do conjunto haverá uma área verde, com um total de 68.730 m². Na parte norte do conjunto, porém, próximo à Rua Carana, quatro torres ficarão bem próximas à área de lazer do parque e, no meio, haverá uma via, ainda sem projeção de largura especificada.A Vivenda Nobre, proprietária da área compreendida pelo quadrilátero formado pela Rua Chico Pontes, Avenida Guilherme, Rua São Quirino e Parque do Trote, investiu R$ 3 milhões na revitalização do parque. À época da inauguração e diante do iminente interesse do mercado imobiliário na região, o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico (Conpresp) prometeu acelerar o processo de tombamento da área envoltória para evitar a construção de edifícios que cercassem o espaço verde, como o órgão já fizera com o entorno da área do Parque da Aclimação, na região central, onde investimentos de construtoras como a Cyrela acabaram congelados.O tombamento do Parque do Trote ainda não foi ratificado, mas, como está em andamento, o empreendimento das 34 torres terá de ser aprovado pelo conselho. Ontem, a Assessoria de Imprensa do Conpresp informou que a planta do projeto foi apresentada também às secretarias de Cultura e do Verde e do Meio Ambiente, mas ainda não foi para a pauta de votação do patrimônio histórico. O Conselho Gestor do Parque do Trote, porém, já enviou ao Conpresp um abaixo-assinado com 3 mil adesões contrárias a novos edifícios próximos ao parque. "Esse condomínio vai criar uma ?ferradura? em volta do parque. Já fizemos uma projeção: com essas 34 torres, a área de bosque perderá 50% da iluminação natural. Sem contar que um conjunto desses vai matar o lençol freático que passa por baixo do parque", afirma Antonio Roberto Freire, integrante do conselho gestor. "Seria um crime aprovar um empreendimento desses em área quase tombada."Para Lucila Lacreta, urbanista do Defenda SP, o processo de tombamento do Parque do Trote já garante a proteção no entorno contra prédios com mais de 25 metros de altura. "Não tem cabimento a construtora dizer que investiu no parque e agora quer lucrar com isso. Torres muito altas podem criar um efeito visual negativo na área verde", aponta a urbanista.Um adensamento na região com torres menores e respeitando as regras do tombamento é defendido pela pesquisadora Ermínia Maricato, do Laboratório de Habitação (Labhab) da USP. "Todo mundo tem direito à paisagem, mas com regras. Em Vancouver, no Canadá, por exemplo, nenhum empreendimento que possa virar uma muralha contra a paisagem das montanhas que cercam a cidade é aprovado", disse a pesquisadora. O maior empreendimento já aprovado pelo governo municipal foi o Portal dos Bandeirantes, um conjunto com 27 torres em Pirituba, na zona norte de São Paulo. HISTÓRIAApós três anos de revitalização, o Parque do Trote abriu ao público em 2006 como o primeiro espaço de lazer da capital totalmente adaptado aos portadores de deficiências. A Sociedade Paulista do Trote, onde fica o parque, foi fundada em 1944. Após o espaço permanecer abandonado por 20 anos, na gestão de Jânio Quadros (1986- 1989) começou a ser discutida a desapropriação do terreno para transformá-lo em um parque, o que só ocorreu a partir de 2005.

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