Partilha ministerial já desagrada a parlamentares do PT e do PMDB

Transição. Indicação de Sérgio Côrtes para a Saúde e de Paulo Bernardo para o Ministério de Comunicações aumentou irritação de deputados dos dois partidos, que se sentem alijados do processo de definição e começam a pôr em risco governabilidade de Dilma

Denise Madueño, Eugênia Lopes, Christiane Samarco / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2010 | 00h00

O PT e o PMDB na Câmara estão convencidos de que, por enquanto, só o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está satisfeito com a montagem do ministério de Dilma Rousseff. E já ameaçam criar problemas para a presidente eleita. Parlamentares dos dois partidos ficaram irritados com a indicação à revelia das bancadas do petista Paulo Bernardo para as Comunicações e do peemedebista Sérgio Côrtes, na pasta da Saúde.

Ignorados no processo de escolha, petistas e peemedebistas - incluído aí o vice-presidente eleito, deputado Michel Temer (PMDB-SP) - não conseguiram, até agora, emplacar seus indicados e sentem-se desprestigiados. Os mais nervosos advertem que está em jogo a governabilidade no mandato de Dilma, porque serão os deputados que vão votar os interesses do Palácio do Planalto no Congresso.

Os nomes do PT e do PMDB já divulgados não passaram pelas bancadas federais, nem tampouco são ministros com os quais os parlamentares que dão sustentação ao governo no Congresso se identificam. A exemplo do que fez Lula, os dois partidos apontam uma manobra para impingir mais uma vez aos deputados o apadrinhamento de ministros na cota da bancada.

Cota fluminense. O indicado para a Saúde, Sérgio Luiz Côrtes da Silveira, é apadrinhado do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB). Côrtes é secretário estadual de Saúde do Rio e médico ortopedista. Chega ao futuro governo Dilma na cota do PMDB fluminense. É o segundo nome que Cabral emplaca na Saúde. Em março de 2007, ele indicou o sanitarista José Gomes Temporão, até hoje no cargo.

Em conversas reservadas, integrantes do PMDB afirmam que Côrtes não representa o partido na equipe, pois entra na cota de Cabral. A indicação irritou os peemedebistas a tal ponto que Temer - que insiste em fazer Moreira Franco ministro de sua cota pessoal - recebeu manifestações de solidariedade na bancada. Sérgio Cabral, afirmam os deputados, nunca consultou o partido sobre a indicação.

Clã petista. No PT, a reclamação é semelhante. A indicação de Paulo Bernardo, hoje titular do Planejamento, para a pasta das Comunicações é vista como uma articulação de Dilma e Lula.

A pasta, que ganhará musculatura no novo governo, transformou-se no xodó de Dilma e poderá ganhar assento nas reuniões semanais da coordenação política de governo. Atualmente o Ministério das Comunicações abriga o Plano Nacional de Banda Larga - programa para universalizar a internet rápida - e é responsável pela regulamentação das concessões de rádio e TV. Cuidará, ainda, da nova lei de comunicação digital.

Os deputados do PT não se consideram representados pelo futuro primeiro escalão já escolhido: Guido Mantega (Fazenda), Miriam Belchior (Planejamento), Fernando Haddad (Educação), Antonio Palocci (Casa Civil), Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral). Apesar de petistas, não são escolhas da bancada. No caso de Haddad, as críticas são maiores. Petistas afirmam que o ministro fez campanha só para o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), escanteando os 17 deputados de São Paulo.

Disciplinados, os petistas não ameaçam retaliação ou enfrentamento com o governo. O mesmo não ocorre com o PMDB.

"Os deputados do PT vão votar tudo, mas a bancada do PMDB para votar tem de ter apoio do governo", resumiu um peemedebista insatisfeito.

O PMDB quer ser recompensado pela perda das Comunicações com uma cadeira no Ministério das Cidades, hoje nas mãos do PP. O partido cobiça, ainda, uma superpasta para cuidar de portos e aeroportos.

Outros quatro ministérios na área de infraestrutura deverão ser comandados pelos peemedebistas: Minas e Energia, Cidades e Agricultura. Na divisão interna do PMDB, dois ministérios serão ocupados por indicação dos deputados e dois pelos senadores. Dilma ofereceu a Previdência aos peemedebistas, ontem, mas o partido não quer a pasta.

O alvo da cobiça é o Ministério das Cidades. O deputado Mendes Ribeiro (PMDB-RS) tem o apoio da bancada. / COLABOROU VERA ROSA

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