Passageiro incorpora atraso à rotina

Há quem encurte feriados e aproveite demora no embarque para trabalhar; outros preferem viajar de ônibus

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

26 de janeiro de 2008 | 00h00

Ao que parece, os passageiros já estão acostumados com os constantes atrasos nos aeroportos. Tem quem mude os planos, quem marque compromissos já sabendo que só poderá chegar horas depois e quem troque os assentos apertados dos vôos comerciais por confortáveis poltronas dos ônibus-leito.O analista de sistemas Gláucio Dias, de 27 anos, vai e volta de Joinville (SC) a São Paulo ao menos uma vez por mês e abomina os chás-de-cadeira do Aeroporto de Congonhas. Prefere viajar os 520 quilômetros que separam as cidades dormindo no ônibus a ficar à mercê do tráfego aéreo ou da manutenção de aeronaves - as duas justificativas mais comuns das companhias, quando os passageiros resolvem reclamar. "Às vezes é impossível, mas sempre que tenho tempo viajo de ônibus para escapar dos atrasos", diz.Diferentemente de Dias, o empresário carioca Alessandro Baldoni decidiu, simplesmente, encurtar seus feriados. A sexta-feira de carnaval, por exemplo, já está riscada do calendário. "Procuro sempre viajar um dia depois, como fiz no Natal. Dessa vez, sacrifiquei um dia do carnaval, mas pelo menos não fico esperando no saguão", diz o empresário, de 27 anos, na fila da passagem. "Pego a ponte aérea ao menos uma vez por mês e não tem dia que não atrase 30, 40 minutos."A reação de Baldoni - de adaptação à desordem - é a mais comum entre os que aguardam nas cadeiras, cafeterias e livrarias dos aeroportos. O comerciante Antônio Carlos Lima, cujo vôo para Passo Fundo (RS) atrasaria 2h15 segundo previsão da companhia, aproveitou para marcar uma última reunião de negócios logo que soube do "reagendamento", como lhe disseram. "Tive de tentar usar esse tempo de forma útil, vamos fazer o quê?"Outro passageiro que decidiu se adaptar à situação é o contador José Figueiredo, de 50 anos. Até mais do que isso. Ele passou a aceitá-la como regra - e se conformou. "Melhorou bastante em termos de pontualidade. Atraso de meia hora já dá pra aceitar, considerando que antigamente você ficava uma, duas, três horas esperando", diz Figueiredo, que mora no Rio e viaja a São Paulo uma vez por semana.Desesperançada mesmo estava a relações-públicas baiana Marina Marinho, de 23. Seu vôo do Aeroporto de Cumbica para Salvador já tinha previsão de atrasar 30 minutos na quinta-feira. "Mas vai atrasar mais, com certeza, como ontem (anteontem)." No dia anterior, sua mãe embarcara no mesmo vôo. O avião, que deveria ter saído às 19 horas, deixou a pista do aeroporto por volta das 23 horas e chegou a Salvador de madrugada. "Só acredito vendo que isso não vai acontecer de novo."

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