Passageiros do ônibus 499 relatam momentos do seqüestro

Os passageiros que estavam no ônibus 499 seqüestrado na manhã desta sexta-feira, 10, pelo camelô André Luiz Ribeiro da Silva, de 35 anos, passaram por momentos de muito medo, mas também experimentaram o sentimento de solidariedade em relação ao homem que poderia se transformar em seu algoz. Depois de perceberem que Silva não tinha o objetivo de matá-los, os reféns se ofereceram para atuar como escudo humano e proteger o seqüestrador, caso ele desistisse do crime. Como Silva se recusava a aceitar a proposta, parte dos passageiros decidiu permanecer no ônibus até o desfecho do caso. Assim, pensaram, evitariam que cumprisse a ameaça de matar a ex-mulher, Cristina Ribeiro, e se suicidar. "Não vou sair porque a polícia vai me matar", gritou o seqüestrador quando os passageiros tentaram convencê-lo a se entregar. "Não lembram do caso do ônibus 174? A polícia adora matar com tiro na cabeça", acrescentou Silva, descontrolado, segundo os relatos.Desempregado, o motorista Antônio Matias Rocha, de 32 anos, ia para uma entrevista na Viação Rubanil quando o ônibus foi seqüestrado. De acordo com ele, Ribeiro disse aos passageiros que "não ia fazer mal a ninguém, mas ia matar a mulher e depois se matar". Ao falar, o seqüestrador apontava a arma, alternadamente, para o pescoço de Cristina e para a própria cabeça.Márcia Maria da Silva, de 22 anos, que também estava no coletivo, disse que ele chegou a pedir desculpas aos passageiros pelo "incômodo" e, em seguida, começou a liberar as pessoas que estavam na parte dianteira do 499. "Sou trabalhador, não sou seqüestrador", disse Ribeiro.O motorista do 499, Flavio Teles de Menezes, contou ter parado em um ponto para o embarque de passageiros quando viu Ribeiro agarrado à ex-mulher, para quem apontava um revólver. "Ele invadiu o carro, apontou a arma para mim, pediu para eu fechar a porta e seguir viagem sem parar para ninguém. Ele dizia o tempo todo que tinha sido traído e iria matar a mulher", disse o motorista.Outro passageiro, Ângelo da Silva Santos, de 26 anos, contou que o seqüestrador acusava a mulher de ter "armado" contra ele, acusando-o de cárcere privado. "Não era isso o que você queria? Colocar a polícia atrás de mim?", dizia ele. Ribeiro contou que o filho mais velho do casal era quem lhe informava sobre os supostos casos amorosos da mãe.Santos disse que, em meio ao seqüestro, houve um momento de alívio entre os reféns. "Quando vimos que ele não faria nada com a gente, que havia libertado as mulheres e idosos, nos reunimos e concluímos que ele acabaria matando a mulher e se matando se saíssemos do ônibus", contou.Segundo o passageiro, que fez parte do grupo de 13 reféns libertados às 15h40, todos aguardaram até que a situação se acalmasse. Três rapazes, que ficaram mais próximos do seqüestrador, decidiram permanecer até o desfecho do episódio. "Depois que ele se acalmou, deu água para os reféns e até biscoito para a mulher. Ele já não batia nela. No máximo puxava o cabelo."

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