Patrimônio se perdeu com o fim do ciclo do café

Há mais de 10 anos ninguém pega a ferrovia que leva ao Porto de Santos

Renato Machado, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

Os trilhos que em outros tempos acompanharam a riqueza do café e invadiram o interior paulista agora estão desertos e tomados pelo mato. A Cia Paulista de Estradas de Ferro foi fundada no fim do século 19 para escoar a produção para o Porto de Santos. A empresa não existe mais e somente alguns trechos são usados para o transporte de carga. Há mais de dez anos nenhum passageiro embarca em um trem, e restaram encravadas nas cidades as antigas estações. Enquanto algumas soluções inovadoras ajudam a combater o desgaste do tempo e das ações humanas, na maioria delas prevalecem o abandono e a destruição."As estações da Cia Paulista foram abandonadas porque o traçado das linhas foi moldado pelo café. Quando começou a queda e a economia se diversificou, a malha ferroviária não acompanhou. Uma pena esse patrimônio ser perdido", diz o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Guilherme Grandi, autor do livro Café e Expansão Ferroviária.A reportagem do Estado percorreu na última semana o tronco oeste da Cia Paulista, entre Itirapina-Panorama, uma das principais rotas do café para o interior, no século passado. Com exceção de alguns bons exemplos, o cenário dominante inclui mendigos ocupando as plataformas, cheiro de urina, estações incendiadas que tiveram roubados azulejos, portas, vitrais, bancos e os grandes relógios nas entradas. Algumas nem mais existem, como a de Universo, distrito de Tupã com menos de mil habitantes. Na década de 1940, o local era importante entreposto do café e tinha grandes fazendas, como a de Souza Leão, cafeicultor que fundou pelo menos cinco cidades na região. O declínio do café afastou os trens, e o trilho se perde no meio das terras. Da estação só ficou a plataforma de carga, já na propriedade do agricultor Donizete Bidóia, de 51 anos. "Todo mundo corria para ver o trem ao ouvir o apito. Ele trazia de tudo, principalmente calcário. Hoje, aqui é o corredor da fome e está todo mundo indo embora."No sentido oeste, a estação de Parapuã é há três anos casa de Antônio Claudemir Gomes, de 50 anos. Aos 8, ele perdeu o pai e, por isso, saiu com sua mãe de Santópolis - norte do Estado - e foi para a atual cidade, em busca de emprego nas plantações de café. O declínio do produto o levou a outros locais - para atuar na lavoura de cana, nos seringais e construção. "Passei pela capital, Minas, Mato Grosso, onde tinha trabalho."Gomes perdeu a mãe e quando voltou para Parapuã não possuía mais lugar para morar. Foi viver em uma caixa d?água, onde ficou três anos. Após a família que morava antes na estação ganhar uma casa da prefeitura, ele se mudou em definitivo para o local, onde fez uma ligação clandestina para ter televisão e geladeira. "Cuido disso aqui. Quando uns ciganos quebraram a porta para invadir, chamei a polícia", diz. Ao dormir, coloca uma lata na porta, pois teme "maconheiros". Segundo ele, o prefeito prometeu dar-lhe uma casa e transformar o lugar num centro cultural. "Isso faz dois anos."Já em Marília, um grupo de mendigos se reúne para conversar e "tomar um goró". Lucas Paulo da Silva, de 55 anos, trabalhou como operário da Ferroban, companhia que administrava os trilhos no Estado, mas está com um problema na visão e por isso foi demitido. "A gente limpa tudo isso aqui. Por que não deixam a gente aqui?"

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