Paulo Bomfim

São Paulo é uma das cidades brasileiras que não podem ser conhecidas sem a poesia que dela faz parte. Os guias nos levam a lugares que não se pode deixar de visitar para conhecer suas belezas, que são muitas. Mas são os poetas que nos guiam até a alma da cidade. Paulo Bomfim é o poeta da imensa alma brasílica de São Paulo, a alma bandeirista dos tempos da invenção do Brasil. Poeta do que fica no coração e na mente.Eu era adolescente, morava e trabalhava no subúrbio, estudava à noite. Em casa, o progresso chegava tardiamente: a duras penas, minha mãe conseguiu comprar um radiovitrola de mesa, quando nossa vizinha já estava comprando sua primeira televisão. Girando o botão de sintonia, pra cá e pra lá, fui descobrindo estações e programas e montando uma programação própria. Acabei me concentrando na Rádio Gazeta, que era então uma emissora de seleta transmissão cultural. A Gazeta tinha sua própria orquestra sinfônica, regida pelo maestro Armando Belardi (diretor do Palmeiras!), e até seu corpo de ópera, em que se destacava a soprano Josefina Spagnolo. Seus programas de música popular eram afinados com a composição multicultural de São Paulo: "Mensagem musical da Itália" trazia o melhor das vozes e da canção italiana, sob patrocínio da fábrica de móveis de vime de Anselmo Cerello. Aos domingos, "Cantares ibéricos" apresentava músicas de aldeia e de bailados populares, da Espanha e de Portugal. Lembro de uma delas: "Ó Rosa arredonda a saia..." Fernando Soares, professor de Português no Instituto Feminino Padre Anchieta, no Brás, e o poeta Paulo Bomfim apresentavam a "Hora do Livro". O programa começava com o "Oh! Bendito o que semeia livros... livros à mão cheia... e manda o povo pensar! O livro caindo n?alma é gérmen - que faz a palma, é chuva - que faz o mar...", de Castro Alves.No começo da noite de sábados, o programa era exclusivamente de poesia. Do fundo dos tempos, a brasilidade paulista falava na cadência dos poemas de Paulo Bomfim. Estávamos entre as comemorações do quarto centenário de São Paulo, em 1954, e as comemorações dos 25 anos da Revolução Constitucionalista de 1932. Foi um tempo de muitas celebrações na cidade, tempo de reavivamento da memória e da nossa identidade coletiva. "Bandeira da minha terra, bandeira das treze listas, são treze lanças de guerra cercando o chão dos paulistas!", dizia Paulo Bomfim. Não era raro que o poeta alagoano, Judas Isgorogota, também dissesse seus versos: "Vocês não queiram mal aos que vêm de longe, aos que vêm sem rumo certo, como eu vim. As tempestades é que nos atiram para as praias sem fim..."Mas é a voz de Paulo Bomfim que, desde então, canta São Paulo em meus ouvidos: "Ruas morrendo em mim, cheias de infância. Árvores mortas com raízes na alma, deitando folhas verdes na distância..."

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