PCC registra em livro negócios e propinas

Contabilidade revela de ?acertos no Deic? a pagamento de advogados

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

Uma lista de "fatos administrativos" é a forma de o Primeiro Comando da Capital (PCC) acompanhar passo a passo as ações da polícia que resultam em perdas de dinheiro, armas e drogas e no pagamento de propinas. A sexta e a sétima linhas de uma demonstração de fluxo de caixa feita pelo tesoureiro da facção em março de 2008 não deixam dúvidas. Na primeira linha, o valor de R$ 8 mil é explicado como "pagamento para fazer acerto dos dois boys no Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado)" e na outra, o de R$ 20 mil é descrito como "acerto dos dois boys no Deic".A descoberta do aprimoramento do sistema de controle do dinheiro da facção foi feita com a apreensão de computadores, CDs, três pen drives e dois livros-caixa em poder de Alessandro Mariano Barbosa, o Bombom ou Docinho, e de Fladimir Alcântara dos Santos, o Dafesta. Eles e outros quatro integrantes da facção foram presos em 3 de dezembro na Praia Grande e levados para o Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc). Bombom, na companhia de Wagner Raposo Olzon, o Fusca, teriam sido responsáveis pelos acordos do PCC com os cartéis da droga bolivianos.O relatório do fluxo de caixa dos bandidos mostra o pagamento de achaque para policiais do Deic em uma nota de rodapé. Nela se explica que os "dois boys entraram em cana no interior" em companhia de oito "irmãos", como são chamados os integrantes da facção. Uma semana depois da prisão, eles foram "requisitados para o Deic porque parece que um dos dois estava pedido por pegar um bota da cidade (balear um PM)".Os criminosos descrevem o suposto fato dizendo que os "boys apanharam bastante". "Depois de quatro dias apanhando, eles não falaram nada sobre a entrega. A doutora (advogada) fez um acerto (pagou propina) para eles (os policiais) não complicarem os dois em situações (inquéritos) que eles não tinha nada a ver." O relatório ainda comenta o comportamento dos dois "boys". "Eles seguraram a entrega e não complicaram os irmãos."Outro documento apreendido, datado de junho, relata "perdas" sofridas por duas regionais: Bauru e Presidente Prudente. O prejuízo total seria de R$ 130,5 mil. No relatório da regional 014 (DDD de Bauru), os criminosos contam que, em 12 de junho, o "irmão Fabiano, o companheiro Rafael e o companheiro Rodela se dirigiam para a 014 para entregar a moeda do progresso (dinheiro do tráfico)". No caminho, eles foram parados em uma blitz pela Polícia Rodoviária, que encontrou "R$ 46,5 mil na caixa de ar do painel do carro". "Assim que chegaram à delegacia, o delegado falou que ele (Fabiano) tinha caído no grampo da Federal." Os bandidos registraram ainda que o "gravata Dr. Ricardo acompanhou o inquérito". Gravata ou anel é como os bandidos chamam os advogados. A sintonia dos gravatas é o departamento jurídico do PCC. Nos documentos apreendidos com Bombom e Dafesta são listados 23 defensores e os salários. Os coordenadores - "doutora Aparecida (capital) e doutor Antônio Davi (interior) recebiam R$ 7,5 mil" em agosto.Ao todo, a sintonia consumiu R$ 137,4 mil naquele mês, dos quais R$ 16.140 só para cobrir os gastos com viagens dos advogados. Já a demonstração de fluxo de novembro registra a saída de R$ 230 mil dos "gravatas".

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