Remo Casilli/Reuters
Remo Casilli/Reuters

Pecado ecológico, maior participação das mulheres e padres casados: Sínodo apresenta documento final

O relatório pede uma Igreja 'com rosto indígena, camponês e afrodescendente', 'com rosto migrante', 'com rosto jovem'. E enfatiza que a mesma deve ser 'pobre, com e para os pobres'

Edison Veiga, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2019 | 17h55

Vaticano - Depois de três semanas de intensos debates na Cidade do Vaticano, os padres sinodais apresentaram neste sábado ao papa o relatório final do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia. Ao longo de 120 parágrafos, divididos em cinco capítulos, as propostas vão desde a conceituação do que é pecado ecológico até a maior participação das mulheres na liturgia católica. E, talvez o mais polêmico item, a proposta para que, em casos específicos e de acordo com a necessidade, homens casados possam ser ordenados padres, dispensados portanto do celibato.

Esta proposta está no parágrafo 111 do documento. Os bispos lembram que muitas comunidades do território amazônico “têm enormes dificuldades de acesso à Eucaristia”, ficando meses ou até “vários anos” sem a presença de um sacerdote. Para diminuir este problema, os padres sinodais pedem ao papa que autorize a ordenação de sacerdotes em a exigência do celibato clerical - desde que, frisam, sejam “homens idôneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiteriado”. Estes padres, prossegue o texto, teriam “uma família legitimamente constituída e estável”.

Todos os parágrafos constantes do documento final precisaram ser aprovados, em assembleia realizada na tarde deste sábado, 26, por pelo menos dois terços dos padres sinodais - aqueles participantes com direito a voto. No encontro final, estavam presentes 181 desses religiosos. De todos os itens, o 111 foi justamente o que teve menor índice de aprovação - foram 41 votos contrários. “São questões complexas. Fizemos avanços e o processo está em andamento. Precisamos refletir, ouvir, mas os processos estão indo adiante”, afirmou aos jornalistas o cardeal Michael Czerny, sub-secretário da Seção de Migrantes e Refugiados do Dicastério pelo Serviço de Desenvolvimento Humano Integral do Vaticano e secretário especial do Sínodo.

Outro ponto explicitado no documento foi o pedido para que seja criado o “pecado ecológico”. De acordo com os bispos, o desrespeito à natureza deve ser visto como pecado porque seria uma afronta a Deus e uma agressão à sua criação. Essa ideia já estava presente, embora não de forma tão incisiva, na encíclica Laudato Si’, publicada pelo papa Francisco em 2015. “Nenhum católico pode viver em comunhão com a Igreja sem escutar o grito da Terra. (Desrespeitar a natureza) é um pecado, é um pecado ecológico”, disse o bispo de Izirzada, no Peru, David Martinez de Aguirre Guinea. 

A maior participação feminina em celebrações litúrgicas e em papeis dentro da Igreja foi abordado em cinco parágrafos do documento, sob o título “presenças e a vez da mulher”. “A sabedoria dos povos ancestrais afirma que a mãe terra tem um rosto feminino. No mundo indígena e ocidental, as mulheres são aquelas que trabalham em múltiplas facetas, na instrução dos filhos na transmissão da fé e do Evangelho, são testemunhas e presença responsável na promoção humana, por isso se pede que a voz das mulheres seja ouvida, que elas sejam consultadas e participem das decisões e, assim, possam contribuir com sua sensibilidade à sinodalidade eclesial”, diz o documento. O item 103 afirma que muitas consultas solictiam “o diaconato permanente para as mulheres”. 

Na hierarquia da Igreja, o diácono é um grau abaixo do padre. Tem participação ativa na comunidade mas não pode celebrar missas nem ouvir confissões, por exemplo. Dentre os parágrafos do documento final, é mais um com forte rejeição - teve 30 votos contrários, a segunda colocação por este critério. 

Trâmites 

As discussões que constam do documento final do sínodo não significam necessariamente uma mudança nos horizontes da Igreja. Trata-se de um avanço no debate. Isto porque a ideia de um sínodo é justamente essa: o papa ouvir o que os bispos do mundo pensam sobre determinados assuntos. Assim, o relatório não tem viés executivo. 

É praxe que, algum tempo depois de um sínodo, o papa redija e publique uma Exortação Apostólica, na qual ele pode acatar os pontos abordados pelos bispos e, na maioria dos casos, pedir mais estudos sobre os temas, delegando isso para órgãos competentes dentro do Vaticano. Segundo afirmou Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério da Comunicação, Francisco “não garante” que vá fazer a exortação. “Ele lembrou que não é algo obrigatório, mas disse que vai tentar fazer, sim, até o fim deste ano”, comentou ele.

Como já se esperava, o documento apresentado tem forte apelo ambiental e cobra posturas inclusivas junto aos pobres, imigrantes e a todas as “periferias do mundo”. O relatório pede uma Igreja “com rosto indígena, camponês e afrodescendente”, “com rosto migrante”, "com rosto jovem”. E enfatiza que a mesma deve ser “pobre, com e para os pobres”. 

“A Igreja é parte de uma solidariedade internacional, que deve favorecer r conhecer o papel central do bioma amazônico para o equilíbrio do clima do planeta; animar a comunidade internacional a dispor de novos recursos econômicos para sua proteção e a promoção de um modelo de desenvolvimento justo e solidário, com o protagonismo e a participação direta das comunidades locais e dos povos originários em todas as fases, desde planejamento até implementação”, diz o parágrafo 68. O documento também fala que a “depredação do território vem junto do derramamento de sangue inocente e da criminalização dos defensores da Amazônia”.

Durante o encontro com os jornalistas, cardeal Czerny enalteceu o papel dos cientistas e ambientalistas convidados a participar do sínodo. “Eles contribuíram para traduzir os sofrimentos do planeta. Ajudaram a que percebamos como as coisas estão graves”, afirmou. Ele lembrou dos recentes incêndios na Amazônia como algo que escancarou uma situação de difícil percepção, aos leigos, “apenas em gráficos e números”.

“O mundo passa por uma grande mudança, a Amazônia está queimando, e um número cada vez maior de pessoas está se dando conta que não podemos continuar respondendo sempre da mesma forma os problemas urgentes, esperando que os resultados sejam melhores”, prosseguiu Czerny. Chamando o momento atual de “crise ecológica”, ele frisou que é preciso proteger a Amazônia. “Ou as pessoas vão levar tudo o que tiver valor. E vão destruir tudo”, disse.

O cardeal citou as migrações e a globalização como algo que poderia se traduzir em “um mundo unido”. Entretanto, reconheceu que o cenário é de tensões cada vez maiores. “Precisamos e queremos aprender cada vez mais”, disse.

Questionado sobre se questões políticas atuais na América Latina não são um empecilho para a preservação ambiental o bispo peruano Aguirre Guinea disse que a resposta está no empenho e na participação política dos fiéis leigos. “Somos capazes de ver e atuar na política, seja em uma pequena comunidade, sejam nas mais altas esferas”, afirmou. “O tema da formação precisa estar presente, para que fiéis leigos possam ter influência sobre políticas de governo.”

Organismo

 No parágrafo 85, os bispos pedem a criação de um “observatório socio-ambiental pastoral, fortalecendo a luta em defesa da vida”. De certa forma, o papa parece ter uma solução semelhante em mente. O sumo pontífice afirmou que pretende criar um órgão dentro da Santa Sé dedicado exclusivamente aos cuidados com a Amazônia. O departamento deve ficar alocado dentro do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, sob o comando do cardeal Peter Turkson.

No encerramento do sínodo, Francisco afirmou que a região amazônica sofre “todo tipo de injustiça” e cobrou da Igreja maior sintonia com a juventude. “A consciência ecológica vai em frente e hoje nos denuncia um caminho de exploração compulsiva e corrupção. A Amazônia é um dos pontos mais importantes disso. Um símbolo, eu diria”, declarou Francisco. 

Ele avaliou que a maior importância do Sínodo dos Bispos são os diagnósticos que foram feitos de questões culturais, ecológicas, sociais e pastorais da região amazônica. Dentro do conceito de ecologia integral, ele frisou que os problemas ambientais precisam ser vistos dentro de seus contextos sociais, “não só o que se explora selvagemente a criação, mas também as pessoas”. 

Para Francisco, a ecologia não pode ser separada das questões sociais. “Na Amazônia há todo tipo de injustiça, destruição de pessoas, exploração de pessoas, em todos os níveis e destruição da identidade cultural”, declarou ele, no encerramento. Ele lembrou sua encíclica Laudato Si’, publicada em 2015, como um marco para balizar o pensamento ecológico segundo as bases do catolicismo.

Ele disse ainda que para lutar por questões ambientais a Igreja precisa mirar no exemplo dos jovens. Citou nominalmente a ativista sueca Greta Thunberg, empenhada em uma cruzada global para alertar sobre a atual crise climática. “Na manifestação dos jovens, como Greta e outros, eles levam um cartaz dizendo ‘o futuro é nosso’. Isso é a consciência do pedido ecológico”, declarou. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.