Pedido veio de ''Brasília e Minas'', diz contador

Pedido veio de ''Brasília e Minas'', diz contador

Atella Ferreira atribui ao colega Ademir Cabral informação de que grupo interessado em documentos da Receita tinha pressa

Fausto Macedo e Bruno Tavares, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2010 | 00h00

A chave para o mistério que ronda a violação de dados fiscais de Verônica Serra, filha do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, aponta para dois contadores: Antonio Carlos Atella Ferreira e Ademir Estevam Cabral. Ambos estabelecidos em São Paulo, eles ocupam escritórios separados, mas atuam em parceria.

Atella declarou ontem que Cabral o procurou em setembro de 2009 e lhe encomendou um serviço junto à Receita - a apresentação de um lote de "cerca de 18" pedidos de obtenção de cópias de declarações de imposto de renda de pessoas físicas. Cabral tinha pressa, conta Atella. "Ele disse: "Ô Atella, os documentos são para um pessoal de Brasília e de Minas, eles estão vindo aí. Tem que ser coisa rápida"."

Segundo Atella, o colega não lhe disse quem era o grupo interessado no resultado da pesquisa, nem se tinha ligação com alguma agremiação política.

Em 24 horas, Atella cumpriu a missão que culminou no episódio que põe sob suspeita analistas tributários e servidores do Serpro no Fisco em Mauá e em Santo André.

Ele foi identificado pela comissão de inquérito da Corregedoria da Receita como o homem que pediu acesso às informações de Verônica e juntou ao expediente uma procuração com assinatura falsificada da filha de Serra e dados incorretos do tabelião. O protocolo de entrada é de 29 de setembro, a retirada ocorreu no dia 30.

Atella diz que não viu nomes na papelada que lhe foi entregue por Cabral. "Eu vejo números, eu vejo CPFs, eu só conto quantos têm, não corro atrás de nomes", afirma. "Nem sabia que Serra tinha filha." O contador, de 62 anos, disse que "é uma vítima, tanto quanto essa moça (Verônica)". "Armaram para mim, quem armou deve pagar."

Na noite de quarta-feira pôs-se a refletir, "puxou pela memória" para tentar lembrar quem teria passado o serviço que lhe rendeu "essa encrenca toda". Leu e releu com "muita atenção e angústia" suas cinco agendas de capa plastificada nas quais lança os nomes da clientela e datas.

"Fiz um exercício de memória, fiquei na dúvida entre pelo menos seis advogados para os quais trabalho regularmente. Aí lembrei que o Ademir me procurou naquela ocasião com um lote grande, não era um pedido isolado", relata. "Ele me passou o serviço, mas não tenho como provar que no meio daqueles pedidos tinha alguma coisa de Verônica. Tenho que fazer exclusões e probabilidades para não atirar para todos os lados. Eu me lembro bem que ele (Cabral) disse que aquela documentação era para um pessoal de fora de São Paulo que estava com pressa, mas nunca disse que era para fins políticos."

Ele diz que ontem, logo cedo, ligou para Cabral e comentou sobre o noticiário que o citava. "Eu perguntei ao Ademir se essa história era sobre o lote que ele me passou, ele não desmentiu."

"Louco". Cabral negou envolvimento na empreitada. "Isso é uma mentira", disse. "Ele (Atella) só pode estar louco de falar uma coisa dessa." Cabral não quis falar pessoalmente, deu sua versão por telefone e afirmou que iria primeiro procurar orientação de um advogado, que chamou de "dr. Marcel, da Paulista".

Disse que "tem amizade" com Atella, mas que nunca pediu ao colega nada que fosse relativo à empresária. "Não adulterei a rubrica dela nem a de ninguém."

Confirmou que há cinco anos faz dobradinha com Atella, mas rechaçou a versão de que tenha sido contratado por emissários de Brasília ou de Minas.

"O Antonio Carlos (Atella) faz pesquisas para mim na Receita e em outros órgãos federais, mas nunca passou pelas minhas mãos documento algum sobre essa pessoa (Verônica)", rebateu Cabral, que disse ser filiado ao PV em Francisco Morato, onde reside e possui um bar.

Ele disse que "trabalha com frequência" para vários advogados, dos quais não citou nomes. "Nunca trabalhei para políticos", garantiu. Também alega jamais ter posto os pés na Agência da Receita em Mauá, foco central do escândalo, e que não conhece os servidores sob suspeita. "Quando precisava de algum serviço (em Mauá) eu falava com o Antonio Carlos (Atella)."

Cabral disse não se lembrar de ter pedido pressa para execução da demanda a que Ferreira se refere. Sobre quem lhe pediu as cópias de declarações afirmou, mais uma vez, que "não se recordava".

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