Pedra no sapato

Praticamente acertado internamente em torno da candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, para a Prefeitura de São Paulo, o PT está às voltas com um problema visto como de difícil solução: construir uma saída que permita à senadora Marta Suplicy recuar da candidatura sem provocar um racha de repercussão negativa na campanha eleitoral de 2012.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2011 | 03h04

No momento, não se vislumbra uma fórmula para superar o entrave sem danos. A oferta de um ministério para Marta - o da Educação, por exemplo, já ambicionado por ela - esbarra na resistência da presidente Dilma Rousseff em fazer esse tipo de transação.

Ir às prévias e derrotá-la tampouco é a saída considerada ideal. Primeiro, porque não há certeza absoluta de que a senadora perca; segundo, porque se ela mantiver a candidatura todos os outros pretendentes (Eduardo Suplicy, Jilmar Tato e Carlos Zarattini) também manterão, levando, na visão do partido, à explicitação de um racha que pode vir a ser prejudicial na campanha; terceiro, e mais importante, porque o PT não pode abrir mão da força política de Marta nas periferias.

A rejeição dela ocorre de maneira acentuada nas classes média e alta, o tipo de eleitorado que os petistas acreditam poder conquistar com um nome novo como o de Fernando Haddad.

Se ela desistir, acreditam, provavelmente só o senador Eduardo Suplicy manteria seu pleito e, como ele enfrenta muita resistência no partido, seria uma hipótese de derrota certa e indolor.

Mas, como dar a Marta a chance de recuar sem que ela precise passar pelo constrangimento de reconhecer que desiste porque a avaliação de seu partido é de que perde a eleição?

"Marta foi muito longe, tanto ao insistir na candidatura quanto nas críticas ao Haddad e ao próprio Lula", avalia um petista com assento no ministério. "Ela poderia dizer que abre mão, reconhecendo que é o melhor para o partido, mas, para isso, seria preciso uma boa dose de humildade."

O ministro não completa explicitamente o raciocínio e deixa em aberto a avaliação sobre a possibilidade de Marta Suplicy contrariar a própria personalidade.

E Lula, não pode pedir a ela que desista?

Difícil, pois o ex-presidente também teria de contrariar sua natureza de nunca explicitar pedidos, até para não se tornar devedor.

Toda obra. O PSD não é apenas um partido que abre uma janela de oportunidade para detentores de mandato interessados em mudar de legenda sem se arriscar a sofrer punições.

Criado a partir de acordos com todos os governadores (à exceção do paulista Geraldo Alckmin, já procurado com proposta de aliança), o PSD serve também para que os chefes de Executivos estaduais aperfeiçoem o manejo das maiorias nas Assembleias Legislativas.

Já os prefeitos, que aderiram em quantidade sem necessariamente se filiarem, têm no PSD uma opção caso haja mudanças que lhes desfavoreçam nos partidos de origem.

Mas a grande vantagem mesmo do PSD é ser uma espécie de tamanho único: serve em qualquer manequim.

Aos fatos. Noves fora os alvos diretos, ganham o quê, querem dizer o quê, pretendem chegar aonde mesmo os que celebram a baixa adesão aos protestos contra a corrupção?

Ao mesmo tempo, não contribuem para a eficácia dos movimentos análises que buscam "inflar" artificialmente os atos que não têm conseguido mobilizar a população na proporção da gravidade do problema.

Divisão de tarefas. O programa do PSDB exibido ontem à noite mostrou suas principais lideranças cada qual em um papel específico.

Fernando Henrique foi o porta-voz das realizações do partido, José Serra ficou com as críticas mais contundentes ao governo federal e Aécio Neves encarnou o arauto da boa gestão, apresentando as credenciais dos governos estaduais.

Enxuto, objetivo, organizado, o programa acabou sendo a antítese da prática atual do partido.

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