Pena Schmidt, o adivinhador de sucessos

Produtor de bandas de rock é hoje o superintendente do Auditório Ibirapuera

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

26 Abril 2008 | 00h00

Se você já foi a algum show no Auditório Ibirapuera, certamente ouviu dos artistas, entre uma canção e outra, elogios às pencas à equipe de técnicos, produtores e assessores que lá trabalham. Da orquestra argentina composta por bandoneons Fernández Fierro ao veterano Zimbo Trio, passando pela música de todo canto das mulheres do Mawaca, o que o público invariavelmente escuta nos shows são intensos agradecimentos. O responsável pela excelência? Ei-lo aqui, Pena Schmidt. Sim, você já deve ter ouvido esse nome se curtiu o Tropicalismo dos anos 60, as atrações estelares do 1º Free Jazz Festival, no fim da década de 70, o estouro do rock?n?roll à brasileira nos 80. Sem contar a produção de, pelo menos, 50 discos com hits que até hoje ninguém se cansou de ouvir nas rádios. Pena, nascido Augusto José Botelho Schmidt, de 58 anos, não se sente à vontade para falar da própria vida - ainda mais porque sua função, durante boa parte dela, foi dar voz e luz àqueles que "peneirou" com fino talento na seara musical das últimas décadas. Seu lugar nos bastidores lhe é agradável e, talvez por isso, possa ser considerado um dos maiores produtores musicais da atualidade. "Quando era jovem, tentei aprender a tocar violão e piano, mas minha mão não era de música. O ouvido era", resume, modestamente, o hoje superintendente do Auditório Ibirapuera, a casa que apresenta uma das programações mais refinadas da capital. Descobriu-se vidrado em música (e teve a certeza de que esse era mesmo seu destino) quando se deu conta do resultado de uma inocente brincadeira, inventada por ele mesmo: apostava que músicas tocariam mais de uma vez no rádio. E acertava, invariavelmente. "O mundo naquela época era inocente e orgânico. Era o público que decidia o que seria sucesso. A música não tinha manipulação, o jabá não era estruturado", categoriza, sem medo, com a certeza de poucos. O primeiro estalo, que acabou servindo como seu "laboratório", veio com os Beatles, quando tinha 16 anos, em 1966. "Vi que faziam algo diferente para a época. Aquilo me entusiasmou." O fascinante mundo da música, sob a perspectiva das coxias, era onde ele desejava aportar, sem saber ao certo que curso técnico, faculdade ou especialização deveria seguir para tanto. Formou-se técnico em eletrônica, pois no fundo sempre soube que nenhum diploma lhe "daria o que queria". Deixou para trás sua cidade natal, Taubaté, ainda muito pequeno, para ser criado em Santos. Aos 18 anos, seguiu rumo a Minas Gerais, onde foi estudar na Escola Técnica de Eletrônica de Santa Rita do Sapucaí. A cada viagem que fazia, fosse para matar as saudades de seus pais ou participar de algum curso complementar, o ponto de parada obrigatório era a banca de jornais do Terminal Rodoviário Tietê, considerada a mais completa da capital paulista na época. Pena corria para a seção de eletrônica para adquirir novos exemplares de revistas importadas que tratavam sobre áudio. Foram elas que o ajudaram a conseguir seu segundo emprego de relevância na área, no Estúdio Scatena, em São Paulo. "Recusei as melhores ofertas de multinacionais de tecnologia. Queria trabalhar com música. Minha primeira atividade registrada em carteira foi na fábrica de instrumentos Giannini. A partir daí, me meti numa série de atividades que acabaram culminando com o convite do Scatena. Ganhei o emprego porque fui o único que soube fazer funcionar um equipamento de som recém-chegado ao Brasil - tudo graças às revistas importadas." MUTANTES E IRA! Pouco tempo depois, a surpresa. Um aparente dia rotineiro, não fosse a presença dos seres Mutantes em carne e osso, parados em frente do estúdio onde Pena trabalhava. Não estavam simplesmente parados: Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias e seus longos cabelos posavam como que para a capa de uma revista, apoiados em seu bugue estilizado com a bandeira americana. Estavam ali justamente à espera de Pena, cujo reconhecimento técnico já havia chegado aos ouvidos dos integrantes da banda mais experimentalista da época. "Não pensei duas vezes em aceitar o convite. Pedi a compreensão do senhor Scatena e, praticamente no dia seguinte, me mudei para a Serra da Cantareira com eles." Era 1974, uma década depois da criação do grupo, início da lenta transição rumo à democracia ditada por Geisel. "Os Mutantes continuavam populares, mas não apareciam mais na mídia - estavam recolhidos. Todo mundo estava traumatizado com a repressão." Mas eles não tinham tempo para lamentações. Os Mutantes desejavam dar mais cores a seu universo paralelo - agora com a ajuda de Pena. "Eles queriam reproduzir o mesmo espírito e tipo de som ouvido havia cinco anos em Woodstock. Rita, Sérgio e Arnaldo sempre foram muito antenados", diz. Pena botou todo o seu talento em caixas e mesas de som especialíssimas, feitas sob medida para os Mutantes. "Até então, ninguém menos que Zuza Homem de Mello exercia minha função, na TV Record", relembra o produtor, para logo emendar: "Sempre fui fã ardoroso da banda. Me encantavam por sua técnica amarrada. Tive o prazer de ter contato com um gênio da eletrônica, o Cláudio César Dias Batista, irmão do Sérgio e do Arnaldo, responsável por toda a programação do grupo." O saldo dessa parceria foram oito meses de turnê por todo o País (os Mutantes de avião; Pena e a equipe técnica de caminhão, dormindo em redes), sem contar as muitas gargalhadas, outras tantas discórdias, muita festa e a constante procura por objetos voadores não-identificados que, de acordo com Pena, "nunca apareciam". Pouco depois, Arnaldo se separou de Rita e afundou nas drogas - teve fim, assim, a parceria de Pena com o grupo. "O Cláudio ?submergiu?, eu e Rita nos falamos a cada cinco anos; com Sérgio, o contato é a cada década." Daí para a coordenação de produção dos maiores festivais brasileiros foi um pulo. Hollywood Rock, as apresentações de jazz na TV Cultura nos anos 70, mais tarde o Rock in Rio e a primeira edição do Free Jazz, em 1985: Pena era chamado de o ?dono? do palco e, por isso, tinha de lidar diretamente com ícones do porte de Peter Tosh, Herbie Hancock e até mesmo os Rolling Stones. "Posso dizer que tirei ?brevê? para esse tipo de trabalho", brinca. "E assim também aprendi a identificar quando uma banda tem mesmo o dom, ou não", acrescenta politicamente, sem mais detalhes. Tanto que quando foi trabalhar para grandes gravadoras, no início dos anos 80, sua função era praticamente a de "olheiro". Produziu o primeiro disco de Almir Sater pela Continental, onde passou dez anos, e foi por causa de um empurrãozinho seu que os Titãs, o Ira! e o Ultraje a Rigor assinaram seus primeiros contratos com a Warner. "O mérito não é meu. Sou só a mão-de-obra, aquele que ajuda a realizar", frisa. É totalmente a favor da troca de informações online que, em suas palavras, devolve ao público o "direito de liberdade de escolha" e tira o poder absoluto das quatro maiores gravadoras (Universal, Sony, Warner e EMI, segundo ele), que, "se tiverem juntas 30 artistas, já é muito". SEM PRECONCEITO Pena não tem preconceito em relação a estilos musicais, contanto que sejam de qualidade. "O Auditório Ibirapuera é um espaço para quem não tem espaço. Quero que ele siga o exemplo de casas como o Barbican Theatre, de Londres, que abriga todo tipo de espetáculo e está sempre lotado. Ou seja, não importa o que apresentemos, o público vai apostar que é bom." Hoje, por exemplo, às 18h, o pianista recifense Vitor Araújo, de 18 anos, mostra seu repertório clássico em criativas releituras que têm provocado polêmica no meio erudito. O prédio do Auditório Ibirapuera, projeto de Niemeyer de 1950, que só conseguiu sair do papel em 2004 após 13 tentativas ("alegaram falta de recursos, de interesse, de política a favor"), abriga ainda uma escola de música que atende 120 jovens e talentosos moradores da periferia da capital. O Instituto Auditório Ibirapuera, cujo presidente é Mário Cohen, é gerido em parceria com a Prefeitura e mantido pela operadora TIM. "O Instituto, por enquanto, só consegue ganhar um terço do que precisa. A idéia é que um dia nos tornemos independentes e, para isso, buscamos constantemente novos parceiros. Queremos um espaço público, gerido com verba privada."

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