''Pensei que seria um novo João Hélio''

Músico Marcelo Yuka, paraplégico desde uma tentativa de assalto que sofreu em 2000, é novamente vítima de bandidos; no sábado, foi espancado

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

03 de março de 2009 | 00h00

Paraplégico desde que foi baleado durante uma tentativa de assalto em 2000, o músico Marcelo Yuka, de 43 anos, foi atacado, arrancado do carro e espancado na manhã de sábado, na Tijuca, zona norte do Rio. Criminosos tentaram sem sucesso levar sua picape Cherokee, adaptada para deficientes físicos. Com dificuldade de dirigir o veículo, os bandidos abandonaram o carro, mas levaram o celular do ex-baterista do Rappa. O músico tentará fazer um retrato falado de um dos criminosos."Não vou entrar nesta onda de parte da sociedade que confunde Justiça com vingança. Quero Justiça", disse Yuka. No verão de 2005, ele estava na mesma região e foi vítima de um arrastão. Os assaltantes chegaram a apontar a arma para o músico, mas nada foi levado. "Eles desistiram. Não tenho certeza se me reconheceram."Yuka contou que foi abordado por dois homens, que aparentavam cerca de 30 anos, quando voltava da Lapa, região boêmia do Centro do Rio, por volta das 6 horas. O motorista e o enfermeiro dele o acompanhavam. Eles foram ao caixa eletrônico e o músico ficou sozinho. "Não durou mais de dez minutos. O que mais me assustou foi a abordagem. Muitas pessoas saem do Rio e até do Brasil por esse trauma. Eles foram muito agressivos", lamentou o baterista. As agressões contra Yuka começaram quando ele disse aos assaltantes que não andava e seria impossível sair do carro sozinho. "Acho que eles não acreditaram. Levei socos na cabeça e nas costelas. Quando tentaram me arrancar e minhas pernas ficaram dentro do carro, notaram que realmente tinha algo de errado."No entanto, os criminosos apenas jogaram as pernas do músico fora do carro e a deixaram sob as rodas. "Tentei me mover, mas era impossível. Pensei que seria um novo João Hélio (garoto de 6 anos, morto ao ser arrastado pelos subúrbios do Rio em 2007)", recordou Yuka. Ele ainda luta para voltar a andar e interrompeu em dezembro a fisioterapia, por causa de uma infecção urinária. O calvário do músico terminou quando os assaltantes não conseguiram ligar o veículo. "Um disse para o outro que não sabia dirigir. Eles saltaram e foram embora. Um voltou para retirar minhas pernas sob as rodas. Em 2000, não pensei que ia morrer. Desta vez me mantive ainda mais calmo. Só pensei que corri risco de morrer depois." Ativista da ONG Brigada Organizada de Cultura Ativista (Boca), que atua na recuperação de detentos, Yuka disse que continuará o trabalho social. "Pela idade, acho que os dois que me assaltaram era reincidentes. Por isso acho importante o trabalho nos cárceres, cujas condições são piores que a de um zoológico", opinou. Ele anunciou ainda que não pretende se mudar da Tijuca e criticou a política de segurança pública do governo estadual. "Isso vai dar mídia e a polícia colocará uma patrulha no local. Em breve, porém, a viatura some. Queria um patrulhamento inteligente há nove anos (quando foi baleado). Não há inteligência na polícia do Rio. Tiros não acabam com tiros."

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