Perdendo o trem

No início de dezembro, participei da Conferência do Urban Age, organizada pela London School of Economics, na Sala São Paulo. No que foi um dia o "hall" das bilheterias da estação Júlio Prestes, com belos vitrais alegóricos relativos à história da Sorocabana, foi montado um anfiteatro para o evento. Na tribuna revezavam-se especialistas fazendo análises sobre pobreza, favelas, cortiços, caos urbano, trânsito lento, excesso de veículos, congestionamentos. De onde estava sentado, eu podia ver, através da parede de vidro, a cada 20 minutos, passageiros da agora CPTM embarcando ou desembarcando de trens que haviam chegado do subúrbio à plataforma, bem ali, diante de nossos olhos. Saindo de táxi, de manhã, das proximidades da Cidade Universitária, para ir à Conferência, havia gasto mais de hora e meia e pago mais de R$ 50 para chegar lá. Aquelas análises expressavam o modo de ver a cidade no confinamento do automóvel. No fim da tarde, resolvi voltar para casa de trem. Por ter mais de 60 anos, disse-me a bilheteira que não precisava pagar passagem. Fiz a viagem até Osasco, em 20 minutos, sentado, lendo um livro. De lá peguei um táxi para ir até minha casa e gastei cerca de R$ 10. Os carros estavam limpos, mas um pouco maltratados. A placa de aço da passagem para o carro seguinte tinha 17 marcas de tiros, o que não é propriamente um convite a optar pelo trem. Na última vez em que Jânio Quadros foi prefeito, começaram a circular uns ônibus verdes, grandes, executivos, entre pontos extremos da cidade e o centro. Eram confortáveis, a tarifa mais cara do que a dos ônibus comuns, horário rígido, viajava-se sentado. Nas minhas idas ao centro, deixava o carro num estacionamento e tomava o ônibus até o Largo do Arouche. Ao menos uma vez por mês costumo flanar pelo centro da cidade: visito invariavelmente o Cristo Agônico na Igreja de São Bento, comovente escultura paulista do século 18, perambulo pelo tempo na porta da bela Casa da Bóia, visito sebos, vou a alguma exposição, tiro fotos, puxo conversa com moradores de rua, aprendo e renasço. O ônibus verde contribuiu significativamente para facilitar meu relacionamento civilizado com o centro. Depois, creio que na administração Erundina, essas linhas de ônibus especiais desapareceram. Tive que retornar ao carro e ao táxi e contribuir descabidamente para o caos urbano.Em Milão, vi senhoras, de ricos casacos de pele, tomando o bonde para ir aos concertos no Teatro La Scala. Em Roma, um prefeito dos Verdes, estabeleceu linhas de tramways de carros articulados, que melhoraram e modernizaram o transporte de passageiros. Não adianta muita análise: temos que decidir entre a civilização do transporte coletivo e a barbárie do carro individual. A civilização é possível.

José de Souza Martins, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2008 | 00h00

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