MÁRCIO FERNANDES | ESTADÃO CONTEÚDO
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Perdeu tudo em Mariana. E foi morar com o ex

Para mineradora, Ermínia é dependente dele

O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2016 | 08h47

Depois do tsunami de rejeitos de minério que destruiu Bento Rodrigues, Ermínia Monteiro, de 58 anos, insiste em manter-se alerta. Custa a fechar os olhos para não reviver aquele pesadelo e, quando acorda, já não reconhece mais a própria vida: a tudo estranha na casa alugada pela mineradora Samarco que é obrigada a dividir com o ex-marido, também desabrigado na tragédia, e com quem não vivia há tanto tempo que já nem se lembra mais.

O que Ermínia tinha, a lama engoliu – levou também sua neta mais chegada e outro neto que estava para nascer. Depois do rompimento da barragem, ela se viu sem trabalho e passou do dia para a noite a viver às custas do ex. Além de ter de morar com ele, foi cadastrada como dependente e não como titular para receber o benefício oferecido pela Samarco.

Até reconstruir as casas, a mineradora deve pagar um salário mínimo por trabalhador desabrigado e um adicional de 20% por dependente, mais o valor de uma cesta básica todo mês. A indenização de R$ 20 mil a que ela e o ex-marido têm direito pelos prejuízos com a tragédia, Ermínia também teme que só seja paga a ele. Por ser filho só dela, Mateus, de 17 anos, nem foi considerado nos cálculos da empresa.

O ex, José Emiliano, de 64 anos, nunca tolerou a presença dos 12 filhos do primeiro casamento de Ermínia. Um dia, no Bento, se mudou assim, sem dizer palavra. Não se divorciaram no papel, mas o casamento também não foi mais o mesmo. Cuidam um do outro, é verdade, não brigam, mas não pensam mais em dividir o mesmo teto.

A casa onde eles vivem agora fica em Mariana. Ermínia não quer reclamar, mas admite: está insatisfeita. Não tem teto que caiba aquela família que já havia se acostumado a viver separada. Ela já avisou que vai embora, ali ela não fica, mas sem um tostão, para onde iria? “Ele gosta de viver sozinho. Eu tenho meus filhos e, depois do que a gente passou, não quero viver espalhada deles.”

Acha que nunca vai se recuperar da tragédia. “O médico diz que é depressão. Então, acabou”, balbucia sem nenhuma esperança. / G.A.

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