Perdizes

Vez ou outra, indo devolver um filme na locadora ou almoçar no árabe da rua de baixo, dobro uma esquina e tomo um susto. Ué, cadê o quarteirão que estava aqui?! Onde na véspera havia casinhas geminadas, roseiras cuidadas por velhotas e janelas de adolescentes, cheias de adesivos, jaz apenas uma imensa cratera, cercada por tapumes. Fecho os olhos, abro de novo, penso se não seria o flashback de um ácido tomado nos anos 60, lembro-me então que eu não existia nos anos 60 e, portanto, aquilo é exatamente o que parece: uma imensa cratera, cercada por tapumes. As janelas, as roseiras, as casinhas, tudo foi levado, em caçambas de entulho - as velhotas e os adolescentes, espero, conseguiram escapar. Em breve, brotará do buraco um prédio, com grandes garagens e minúsculas varandas, e será batizado de Arizona Hills, ou Maison Lacroix, ou Playa de Marbella, e isso me entristece, não só porque ficará mais feio meu caminho até a locadora, ou até o árabe na rua de baixo, mas porque é meu bairro que morre, devagarinho.Os bairros, como os homens, também têm um espírito. É uma espécie de chorume transcendental que escorre pelo meio-fio, soma de suas construções e seus personagens, sua história e sua paisagem. Perdizes é o bairro da PUC e de palmeirenses que gritam pela janela a cada gol, ensandecidos, dos poetas concretos e de deliveries que vendem pizzas de mussarela, cada vez mais barato, a cada ano que passa, é o bairro do Tuca e do Tom Zé - que, dizem, é o jardineiro do prédio em que mora. Da mesa do árabe em que almoço, vejo estudantes de Moda do Santa Marcelina, de cabelo azul, esperando para atravessar a rua, ao lado de freirinhas, que cursam pós em Teologia na PUC, vejo meninos e meninas de uniforme escolar mascando chicletes, ouvindo iPod e provocando uns aos outros, daquele jeito que meninos e meninas se provocam, um segundo antes de nascerem peitos e barba. Vejo um cara que vende cocada, vindo diretamente do século 19, batendo a sua matraca. No ponto da Cardoso tem o Adão, taxista que conhece não só todas as árvores frutíferas da cidade como ainda sabe em que época cada uma delas dá seus frutos.Às vezes, no fim da tarde, quando ouço o sino da igreja da Wanderley badalar seis vezes, quase acredito que estou numa cidade do interior. Aí saio para devolver os vídeos, olho pro lado, percebo que o quarteirão desapareceu e lembro-me que estou em São Paulo, e que eu mesmo tenho minha cota de responsabilidade: moro no segundo andar de um prédio. É um prédio velho, tem o simpático nome de Maria Alice, mas e daí? Ali, embaixo, onde agora fica a garagem, já foi cratera, e antes dela o jardim de uma velhota e a janela de um adolescente, cheia de adesivos.

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