Paulo Liebert/Estadão-4/11/2012
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Perfil dos punidos no Enem revela imaturidade

Entre os 66 desclassificados por postar fotos da prova na internet, 48 concorriam a vaga; para psicopedagoga, ato foi sinal de ‘descrédito na educação’

Paulo Saldaña e Renato Vieira, Especial para O Estado de S. Paulo

10 Novembro 2012 | 15h56

Não foi uma brincadeira de treineiros. Dos 66 eliminados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) por postarem fotos da prova ou do caderno de questão, 48 são concluintes ou já haviam concluído o ensino médio e podiam concorrer a uma vaga na universidade. Além disso, 40 haviam pago a inscrição do exame.

 

No primeiro dia da prova, no sábado dia 3, 38 inscritos haviam sido eliminados após publicarem fotos na rede social. Mesmo com o anúncio das punições, outros 28 repetiram o ato no domingo. As regras do Enem - transformado em 2009 em vestibular para a maioria das universidades federais - proíbem manter o celular na mesa. O aparelho deve ficar debaixo da cadeira, lacrado em um saco plástico.

 

As demonstrações de exibicionismo e irresponsabilidade chamaram a atenção. Em uma edição sem problemas de infraestrutura, foram uma das grandes preocupações do Ministério da Educação (MEC) com o exame.

 

Para a psicopedagoga Maria Irene Maluf, o episódio das eliminações do Enem mostra um descrédito na educação. “Há uma banalização da educação. Além disso, é uma atitude típica da idade de que é possível burlar tudo, que não existe penalidade”, diz ela. “É como entrar em um festa sem ser convidado. Ele quer mostrar que é capaz de mostrar que o Enem é furado. E a rede social é onde ele está.”

 

Antonio, que pediu para não ter o sobrenome divulgado, foi um dos 20 candidatos eliminados em São Paulo. Ele mesmo não consegue explicar a razão das publicações. “Sabe quando você tem aqueles momentos de idiotice? Faltavam 10 minutos para começar a prova, eu tirei a foto. Uma ideia de jerico”, disse.

Essa “ideia de jerico” adiou seus planos de tentar uma vaga em Química. Ele não se inscrevera para nenhum outro vestibular. “Não achei que teria maiores consequências. Agora, só ano que vem.”

 

O pesquisador de comportamento jovem Daniel Gasparetti lembra que, apesar do tom de brincadeira que as fotos podem ter, esse público incorporou a internet à rotina. “Apesar de levarem a internet a sério, eles ainda a consideram um ambiente alheio às leis, inatingível pelas autoridades. Não imaginam que podem estar sendo observados e identificados”, diz.

 

Dados do MEC obtidos pelo Estado mostram que, entre os 66 eliminados, 24 não pagaram inscrição. Doze porque são concluintes de escola pública e, pelas regras, são isentos. Os 14 restantes já haviam concluído o ensino médio e declararam carência para obter a gratuidade. Metade dos desclassificados tem menos de 17 anos. Do total, dez têm mais de 21 anos, sendo que dois deles já chegaram aos 25. / COLABOROU OCIMARA BALMANT

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