Perícia confirma falta de segurança em casa noturna

O resultado da perícia que apontará as irregularidades no funcionamento da casa noturna Canecão Mineiro, onde na madrugada do último sábado um incêndio causou seis mortes e deixou 340 feridos, em Belo Horizonte, só serão apresentados oficialmente a partir da conclusão do laudo técnico, previsto para 30 dias. Mas os peritos do Instituto de Criminalística, que trabalharam durante todo o final de semana no levantamento físico da casa de shows, constataram a evidência de falhas no sistema de prevenção de incêndios que poderia ter evitado a tragédia. Os peritos recolheram objetos derretidos e contorcidos, indicando que a temperatura alcançou 600º graus centígrados na altura do telhado. Além disso, amostras das placas de isopor que faziam o isolamento acústico do teto, da fiação elétrica e dos fogos de artifício usados para animar um dos três shows que a casa apresentaria também foram recolhidos para análise. De acordo com o perito Gérson Campera, a casa noturna contava apenas com quatro extintores e nenhum hidrante para abastecer os equipamentos, nem com pontos de sprinter, próprios para liberar água automaticamente em caso de elevação da temperatura. Além disso, possuía apenas uma saída de emergência."Esta estrutura com a qual a casa noturna contava para funcionar é insuficiente para uma área de 2.400 metros quadrados e capacidade estimada para 4 mil pessoas. É o caso de uma adaptação incorreta de um galpão antigo para uma casa de shows que envolve a presença de uma grande quantidade desprotegida de pessoas", disse.O perito disse que a utilização de fogos de artifício no interior de qualquer estabelecimento é proibida e que o incêndio foi provocado pela chamada "cascata de prata", montada pela banda Armadilha do Samba, que se apresentaria na noite do incidente."Ao que parece a banda sempre que se apresentava na casa utilizava os efeitos especiais com os fogos de artifício. Mas desta vez, ao contrário de outras vezes, a banda colocou os fogos presos ao teto, para criar a tal chuva de prata, e não lançados de baixo para cima", explicou.SidicânciaO prefeito em exercício de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, determinou a criação de uma comissão de sindicância para esclarecer as circunstâncias e condições que possibilitaram o funcionamento da casa noturna Canecão Mineiro e a liberação do alvará. O Ministério Público, através do procurador Jarbas Soares, também informou que poderá ser instaurado inquérito contra os responsáveis por homicídio culposo na Delegacia de Vigilância Geral.Somente amanhã o estabelecimento estará liberado para os proprietários. Eles serão intimados a apresentar o projeto de incêndio e o alvará de funcionamento da casa, que ainda não teriam sido apresentados a nenhuma autoridade responsável, passados dois dias do incêndio.O advogado da casa de shows, Gilson Marques de Azevedo, informou que os proprietários do estabelecimento, conhecidos apenas por Newton Menezes e Maria Aparecida, aguardam as providências das autoridades e, apuradas as causas e os responsáveis pelo acidente, tomarão as medidas cabíveis para o caso. Segundo o advogado, no dia do incêndio Newton estava passando o final de semana em Ouro Preto (MG), e a sócia entrou em estado de choque, tendo que receber cuidados médicos assim que recebeu a notícia."Ainda não estive pessoalmente com os proprietários, por isso não sei dizer se o Canecão Mineiro estava com o alvará para casa noturna ou se tinha seguro", afirmou. A comissão municipal, formada pelo secretário de Coordenação de Política Urbana, Murilo Valadares, pelo procurador geral do município, Marco Antônio Rezende Teixeira, e pelo chefe de gabinete da Prefeitura de Belo Horizonte, Paulo Lott, irá apurar em três dias úteis, a partir de amanhã, o processo de licenciamento e fiscalização da casa noturna. O Corpo de Bombeiros acusa a PBH de conceder o alvará de funcionamento à casa sem a apresentação de um plano de prevenção de incêndio, conforme previsão legal. "É responsabilidade da prefeitura explicar porque esta casa noturna funciona sem a aprovação do Corpo de Bombeiros. Aliás, não só esta mas como diversos estabelecimentos que recebem alvará da prefeitura sem que o Corpo de Bombeiros tome algum conhecimento", informou o comandante da Companhia Operacional do 1º Batalhão, capitão Antônio Afonso Rocha.O prefeito não quis comentar as declarações do bombeiro e se manifestou através de uma nota oficial, divulgada pela assessoria de comunicação. "A Prefeitura tornará públicas todas as informações de sua alçada sobre o caso e tomará as medidas administrativas e judiciais que couberem" , diz a nota. VítimasAté o início da noite, pelo menos 60 vítimas do incêndio permaneciam internadas em sete hospitais de Belo Horizonte. Duas ainda com risco de vida, Andréa Gregório de Matos e Iara Rodrigues, internadas no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, e outras nove em estado grave no centro para queimados do HPS. Pela manhã os corpos das últimas quatro vítimas do incêndio foram enterrados em cemitérios da capital mineira e do interior do Estado. Foram sepultados os corpos de Geraldo Soares de Souza (41) e Ivanildo Miranda, (37), no Cemitério da Saudade, de Everlaine Renata Martins (20), no Cemitério da Paz, em Belo Horizonte, e da advogada Cláudia de Almeida, 39, na cidade de Cachoeira da Prata (MG). Ontem foram enterrados os corpos da auxiliar de escritório Luciana Flávia Caetano, (21) e de Roseane Peres, (30), que trabalhava em um laboratório de citologia, no Cemitério da Paz.

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