Tiago Queiroz / Estadão
Tiago Queiroz / Estadão

Periferia não tinha tempo para ir às manifestações, explica militante

Moradora da favela São Remo, no Butantã, Clariane relata a experiência de organizar atos fora do centro de São Paulo

Celso Filho, Marcelo Osakabe e Mel Bleil Gallo,

13 Dezembro 2013 | 18h02

Aos 19 anos, Clariane Santos é a caçula do coletivo Luta Popular de São Paulo, grupo formado por mais oito mulheres que se mobilizam pelo direito à moradia. Ela vive na favela São Remo, no Butantã, e divide o tempo entre militância, trabalho e cursinho pré-vestibular. Os planos de Clariane são de ser aprovada em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP) - a poucos minutos de casa. Em junho, além de participar dos protestos,  o coletivo trabalhou para estimular a participação dos moradores de bairros como Grajaú, Jardim Angela, Capão Redondo e Campo Limpo. É nessas regiões onde vive boa parte das pessoas que enfrentam os problemas que os militantes, nas ruas, tentavam resolver.

Como vocês se organizavam?

A gente pegava sempre os horários da manhã ou do almoço, que têm mais movimento. Organizávamos apresentações com artistas locais para chamar atenção e falar sobre problemas da região. As pessoas paravam, por incrível que pareça. A gente também convidava as pessoas pela internet e por meio de panfletagem nas estações de metrô. Mas não vinha muita gente das comunidades em si, fora o pessoal que já participava dos movimentos sociais.

Na sua opinião, por que havia pouca adesão?

É difícil. Mesmo se você passa na rua para dizer que tem marcha no dia seguinte, as pessoas não participam. Seja por causa da a morte de um morador, da falta de um semáforo ou de uma creche. Na hora dos atos no centro, tinha muita gente trabalhando ou estudando. As pessoas não tinham tempo de sair da zona sul para o Largo da Batata. Mas, se viam alguma coisa acontecendo do lado delas, ficavam empolgadas e queriam participar, colocar no Facebook, dizer que ali também tava tendo ato. Mas, em junho, as pessoas tinham o sentimento de querer participar.

O que mudou esse sentimento depois de junho?

É que quando teve mais atenção da mídia, começaram a dizer 'olha só, agora virou moda ir pra rua, fazer vandalismo'. E as pessoas ficaram com medo de serem confundidas com vândalos. Mas eu falo de quem não estava acostumado a participar e que não sabe o impacto que a participação dela representa para sociedade. As pessoas dizem 'não acredito que você tá indo apanhar da polícia, desses caras que quebram ônibus'. Já me perguntaram: 'Mas você, negra, com cabelo afro, não tem medo dos skinheads?'

Você chegou a ter medo?

Talvez sim, um pouco de medo, no fundo. Mas sabe a emoção de ver tanta gente na rua? Eu não pensei tanto em ser agredida na rua ou abordada pela polícia. O medo da repressão policial era maior entre os que não eram de nenhum movimento. Gente que eu nunca imaginaria começou a defender os manifestantes porque viu o que estava acontecendo. Se tivessem visto de casa, defenderiam a polícia.

E como elas mudam de ideia?

É que na hora em que as pessoas veem que o protesto é pacífico, elas mudam de opinião. Para muita gente, foi uma coisa diferente ver uma peça de teatro ou um show na saída do metrô. Quem não tem dinheiro para levar a família ao teatro e, de repente, vê uma peça de graça, aproveita. Eles sempre saem satisfeitos, mesmo que cansados, cheios de barro. Tiveram, pelo menos, um momento de alegria.

Havia apoio das pessoas mais impactadas pelos problemas denunciados durante os protestos?

Não sei. Mesmo se oferecessem uma passagem de ida e de volta para as pessoas participarem, acho que elas não iriam. Mas elas responderiam que apoiavam os protestos porque a repressão nas favelas onde elas vivem é muito grande. Depois do caso dos jornalistas que foram atingidos no olho, minha mãe falou: 'Tá vendo, quando é uma pessoa bem de vida, todo mundo fica comovido'.

Houve alguma conquista concreta?

Aqui na comunidade, por exemplo, a gente puxou ato pelo problema da moradia. Agora, quando as pessoas me veem na rua, me perguntam como ficaram as coisas. Elas passaram a ter a referência dos movimentos sociais e se preocupam, mesmo sem querer participar da organização. Quando as pessoas veem que dá certo, elas começam a sentir vontade de participar.

É possível alcançar conquistas mais concretas sem estar em um partido?

Acho que sim. Se você estiver em um coletivo minimamente organizado, que pense as mesmas coisas que você e faça isso com força de vontade. Falo em pequenas lutas. Antes eu pensava que só adiantaria ir pra rua com mil pessoas. Hoje, eu já acho que cinco podem fazer a diferença. Não para mídia, mas para quem viu as pessoas lá, nas ruas, é uma informação a mais que ela vai passar para o vizinho.

O que você acha que vai acontecer no ano que vem?

A mobilização deve aumentar, principalmente entre os jovens, justamente por causa da Copa do Mundo. Mas também porque a juventude da periferia continua morrendo, pessoas seguem desabrigadas, o transporte ainda está um caos e tem um monte de gente sofrendo na fila do SUS. A luta já existia antes das manifestações. Tem essa história de que ‘o povo acordou’, mas não foi assim. Alguns despertaram, mas já tinha gente na luta. O próprio MPL já estava havia muito tempo. Agora, as pessoas deram uma desanimada, mas se tiver um novo ato com mil pessoas, elas voltam.

E até lá?

Agora a construção tem de ser contínua, com debates, oficinas e atividades com a comunidade. Se todo mês tiver alguma coisa, as pessoas continuam envolvidas. A troca de experiências entre as pessoas as torna mais conscientes dos problemas sociais. Essa vivência faz a gente se identificar e se mobilizar.

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