Peritos independentes analisarão denúncias de abuso no Rio

Objetivo é checar laudos emitidos pelo IML de casos suspeitos de execução

Agencia Estado

02 Julho 2007 | 10h04

Peritos vão realizar autópsias paralelas nos corpos dos mortos na operação policial do Complexo do Alemão. O pedido será feito pelo deputado Chico Alencar (PSOL) à Secretaria Nacional de Direitos Humanos. "Consultei o secretário de Segurança Pública do Rio e ele não se opôs. Eles vão atuar nos casos em que haja suspeita de execução", declarou neste sábado, 30, o parlamentar, que integra a Comissão Permanente de Combate à Tortura e Violência. Alencar esteve no Complexo do Alemão para ouvir relatos de abusos e execuções junto com o deputado estadual Alessandro Molon (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio, e com o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). O clima no encontro realizado na Associação de Moradores da Favela da Grota era de revolta contra a polícia. Pelo menos uma testemunha de execução foi localizada. Ele afirmou que escapou da morte porque conseguiu se identificar como trabalhador, mas ficou em pânico ao ver um homem ser executado perto de sua casa. "Voltei para casa atrás da minha mulher e meus cinco filhos. Ao chegar perto de casa encontrei um cara baleado e desarmado. Estava quase morto. O policial militar veio e deu o último tiro. Fiquei apavorado e só pensava na minha família", disse o homem que como todos os ouvidos pelos deputados pediu para não ser identificado. Outra testemunha afirma que Mawell Vieira da Silva, de 16 anos, que seria ligado ao tráfico de drogas local, foi dominado por um policial militar e esfaqueado antes de ser executado com um tiro. "Ele foi aberto com um golpe de faca que abriu da orelha até o peito", disse X. O Instituto Médico Legal (IML) atestou que todas as mortes foram por Perfurações por Armas de Fogo (P.A.F.). No caso do adolescente, ele foi atingido por tiros no tórax e abdômen, de acordo com a guia de sepultamento emitida pelo IML para o Cemitério de Inhaúma, na zona norte, onde o rapaz foi enterrado. Os deputados ouviram vários relatos de supostos abusos cometidos por policiais. "Eles (os policiais) arrombaram minha venda, beberam e comeram tudo o que queriam", contou uma comerciante. Outros moradores afirmam que foram agredidos. O dono de uma casa que ficou destruída por tiros e explosões de bombas caseiras jogadas pelos traficantes estava desolado. "Quis sair daqui e minha mulher não aceitou. Agora, já no final de nossas vidas, perdi a única coisa que tínhamos que era a casa", disse o homem de 78 anos. "Essa operação aumentou mais a distância entre a favela e o poder público. Infelizmente, o espetáculo de abertura do Pan foi uma incursão aterrorizante para matar. A polícia entrou, matou e saiu e tudo continua na mesma dentro da favela sem um policial, bandidos armados e com a ausência total do Estado", declarou o deputado Chico Alencar ao final da visita ao conjunto de favelas.

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