Pernambuco é o Estado onde mais morrem mulheres no País

Dione Soares da Silva, de 56 anos, pouco sai de casa. Tem medo. Sua vida nunca foi fácil. Ela, que em setembro de 2001 viu um dos seus oito filhos, envolvido com drogas, ser assassinado na porta de casa, viveu tragédia pior em 2002. Uma das noras - ?uma moça boa, evangélica? - foi atacada na casa onde morava, quando chegava da igreja com as duas filhas, uma de 10, outra de 7 anos. Ela e as meninas foram estupradas e esfaqueadas com requintes de crueldade. O criminoso fugiu.A mais nova sobreviveu porque se fingiu de morta. Desde o crime, já se submeteu a sete cirurgias - períneo, reconstituição do intestino, plástica anal, entre outras -, foi discriminada na escola diante de tantas marcas e pela colostomia a que se submeteu. Até 2006, usava fralda descartável, porque não tinha controle do intestino. Hoje, é uma pré-adolescente assustada, com crises de depressão. Vive com a avó Dione, no Córrego do Euclides, no Recife. Desde 1º de janeiro até quinta-feira, 15, 69 mulheres foram mortas em Pernambuco. De 2002 a 2006, foram 1.512 mortes, segundo o Observatório da Violência contra a Mulher. Elas continuam sendo vítimas principalmente dos maridos, namorados e ex-companheiros. A maioria é pobre, negra e tem entre 15 e 24 anos, mesmo perfil dos homens vítimas de homicídio no Estado. O relatório da USP/Comissão Teotônio Vilela, com base em dados do Sistema Único de Saúde, mostra que 1.428 mulheres foram mortas no Estado entre 2000 e 2004.Para a pesquisadora Ana Paula Portela, do Observatório, desde 2002, quando começaram a ser coletados dados sobre violência e assassinatos de mulheres, o índice - ?altíssimo? - se mantém estável: entre seis a sete mulheres em 100 mil habitantes são assassinadas por ano. Nos países desenvolvidos, não chega a uma por ano. No Brasil, são quatro. Para o assessor do governo na área de segurança pública, o pesquisador e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) José Luiz Rattón, uma combinação de fatores explica a maioria dos homicídios no Estado: a cultura da honra, da masculinidade, aliada à alta disponibilidade de armas de fogo e surgimento de grupos criminosos associados ao tráfico de drogas.Recife tenta reagir ao problema. Nesta sexta-feira, por exemplo, é dia de apitaço no Córrego do Euclides, área pobre do Recife. As mulheres vão para a rua e apitam contra a violência doméstica. O apitaço ocorre uma vez no ano, em março, e no dia-a-dia da comunidade, sempre que se escuta alguma mulher apanhando. É um alerta.

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