ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

Pernambuco responde por metade da alta de homicídios no País

Maioria das mortes está ligada a tráfico de drogas e a grupos de extermínio

Marco Antônio Carvalho, enviado especial a Recife, O Estado de S. Paulo

21 Agosto 2017 | 03h00

RECIFE - A Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no centro de Goiana, a 60 quilômetros do Recife, estava lotada na quente noite da quarta-feira passada. Grande parte dos presentes usava uma camisa branca com uma foto onde aparecia um jovem com semblante sereno. Acima da imagem, a identificação: tratava-se de Edvaldo José da Silveira Neto, o Netinho, de 21 anos. No sábado anterior, ele havia sido assassinado na cidade com um tiro durante tentativa de assalto em que uma quadrilha tentou roubar seu carro.

A missa de sétimo dia lotou a igreja com clima de consternação. Familiares lembravam da personalidade do jovem enquanto aproveitavam para cobrar por medidas de segurança mais efetivas. Em julho, Pernambuco chegou a 3.323 crimes contra a vida no ano. Isso já é mais do que o que foi registrado em todo 2012 (3.321) e 2013 (3.100) por exemplo. No primeiro semestre, o País teve 1,7 mil homicídios a mais do que no mesmo período do ano passado; 913 deles em Pernambuco.

A mãe de Netinho, a enfermeira Mônica Silveira, de 42 anos, se lembra dele como “intenso” e “com pressa para viver”. “Ficava revoltado com os casos de violência que eram noticiados e acabou, veja só, sendo vítima dela”, disse. “Aqui, ficou seu legado e teus ensinamentos, meu anjo amado. Seremos pessoas melhores graças a ti”, escreveu, em texto lido na cerimônia. 

Para o pai, o tabelião Edvaldo Silveira, de 43 anos, o momento é de falar, não calar, e de reclamar. “Um dos suspeitos presos era menor, você viu? 17 anos. Tem de mudar a legislação deste País.” Três foram presos e um adolescente apreendido por suspeita de ligação com o caso. 

Mas latrocínio não é o tipo de assassinato mais comum na região. A Secretaria de Defesa Social estima que 50% das mortes estejam ligadas a disputas por tráfico de drogas, 20% associadas a grupos de extermínio, também conectados em alguma medida ao tráfico, e o restante divididos entre crimes por desavenças pessoais e latrocínio. 

É madrugada em Charnequinha, em Cabo de Santo Agostinho, região metropolitana do Recife, quando o rabecão chega à segunda travessa da Rua Dezenove para recolher o corpo de Andreia Figueiredo, de 38 anos, na madrugada da quarta-feira. Horas antes havia sido encontrada morta, com sinais de esganadura, na sala da sua casa. 

O horário não impede que dezenas se reúnam perto da cena do crime, ainda sem autoria, para acompanhar o trabalho da polícia. Os investigadores logo informam que a vítima tinha três passagens pela polícia por tráfico de drogas. O ex-marido e o irmão, presentes no local, não choram, apresentando ar de aparente conformismo para o que chamam de destino da mulher. 

Um mototaxista com casaco do Sport, time de futebol local, reage com desprezo à pergunta sobre segurança. “Aqui morre um todo dia.” O homem, que preferiu não se identificar, erra por pouco. Com 94 assassinatos no ano, Cabo de Santo Agostinho tem um homicídio a cada dois dias e 30% mais casos do que no ano passado. 

Já no bairro de Peixinhos, em Olinda, a memória persegue a dona de casa Julieta da Silva Ferreira, de 62 anos. Agosto é um mês difícil para a família. No dia 10, completou-se 5 anos do assassinato do jovem Douglas Silva, de 19 anos, o MC Lank. Quem em frente à casa da dona Julieta pode atribuir a essa lembrança o fato de ela ouvir nas alturas o disco gravado pelo filho, que sonhava em ir para o Rio e se profissionalizar no funk. “Acho que mataram foi por inveja, porque a gente é pobre, mas ele sempre tinha as roupas deles como queria. E foi uma pessoa que frequentava aqui em casa e acabou fazendo isso com ele”, lembra. Um acusado pela morte está preso

Pacto. José Luiz Ratton, da Universidade Federal de Pernambuco, é cético quanto à efetividade do programa de segurança do Estado. “O Pacto pela Vida como foi concebido morreu. O que o governo faz agora é gerir uma marca. Há gestão mal feita da marca que já foi bem-sucedida.” Ele esteve no centro da criação do programa – um dos mais elogiados no País na última década – e saiu antes de aparecerem as falhas. 

O secretário de Defesa Social, Antônio de Pádua Cavalcanti, tem avaliação diferente. “Está mais vivo do que nunca. O pacto é política de Estado construída há dez anos, de muito sucesso, e colocou Pernambuco entre os melhores Estados no enfrentamento à violência, mas obviamente há necessidades de ajustes operacionais e os resultados já estão sendo colhidos.”

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