Pesquisa da Unesco revela causas da violência nas escolas

Entre 9% e 18% dos estudantes brasileiros têm ou já tiveram contato com armas de fogo. E o acesso a esses armamentos nas proximidades das escolas é tão fácil, segundo os alunos, que a maioria sabe indicar onde e de quem comprá-los, de acordo com dados de pesquisa da Unesco em 14 capitais do País. O estudo revela ainda que a posse de armas pelos estudantes e a violência nas escolas andam de mãos dadas. São Paulo, o Estado que registra maior índice de criminalidade contra alunos, é também a região brasileira com mais estudantes armados. Eles próprios confirmam essa tese. Setenta por cento dos portadores de armas disseram que elas são usadas nas ocorrências violentas nos colégios. No ranking da criminalidade, Distrito Federal e Goiás ficam em segundo e terceiro lugar, respectivamente. A pesquisa, com revelações que podem modificar o comportamento de professores, alunos, pais e dos próprios agentes de segurança, foi coordenada por Miriam Abramovay, do Banco Mundial, e Maria das Graças Rua, da Unesco. Concluído em março e divulgado agora, o estudo durou um ano e teve participação de 33.655 alunos, 3.099 professores e diretores, 10.255 pais, vigias e policiais. Os pesquisadores percorreram escolas estaduais, municipais e particulares das capitais de São Paulo, Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rio e Santa Catarina. Também foram colhidas informações como a relação entre estudantes e professores, o uso de armas, furtos, tráfico e a atuação das gangues. A equipe ouviu ainda respostas sobre itens gerais de segurança em ruas e avenidas onde ficam os colégios. Em 51% das escolas brasileiras não há semáforo, passarela, faixa de pedestre, nem policial controlando o trânsito. Em apenas 7% das unidades havia policial cuidando do tráfego. Álcool A existência de bares nas imediações das escolas também é citada como fator que contribui para a violência. Um estudante de Salvador, na Bahia, contou que há vários barzinhos perto de sua escola e que os alunos costumam beber a desde as 6 horas. "No ano passado, eles quebraram a vidraçaria toda em uma sala, quebraram as cadeiras, as portas, bateram em gente, bateram no diretor da escola, eles bateram mesmo, porque tava todo mundo bêbado", disse o estudante. "Então é aquela coisa, vou sair do colégio, estou bêbado, eu num tenho nada a perder, eles não podem fazer nada comigo, eu vou bater, eu vou brigar com todo mundo que não gosto." Em Fortaleza, no Ceará, outro aluno conta história de brigas e reclama da falta de policiamento específico para as escolas. "Tem de ter segurança, policiamento. Ali no morro, próximo à escola, tem uma turma que fica lá em frente. Mais pra baixo tem o colégio. Aí fica o pessoal dum lado com os de lá", afirmou o estudante. "Uns chamando os outros pra brigar, rebola pedra. rebola pau, o quartel em frente, os policiais vendo e não fazendo nada." Os pesquisadores afirmaram que a presença ou a ação da autoridade policial vem sendo questionada por um outro ângulo: o de que sua eficácia seria muito restrita na medida em que a violência tem crescido não em locais específicos, mas a partir da presença de determinados jovens. AbandonoA segurança nas escolas nem sempre é feita por policiais. As particulares contratam agentes privados. Nas públicas, há vigias que são, ao mesmo tempo, porteiros e protetores do patrimônio escolar. "Não temos funcionários suficientes. A escola está largada em todos os sentidos, principalmente porque não mandam a polícia para cá", disse um professor de Salvador. Um inspetor de escola pública em Maceió, Alagoas, quer mais vigias na hora do recreio. Já um vigilante de Salvador quer policiamento em todos os turnos, com reforço no noturno. "Deveria ter pelo menos dois policiais em cada escola à noite." Os alunos também reclamam da falta de policiamento. Nas escolas consideradas de "risco" pela atuação de criminosos, traficantes e gangues, os estudantes sustentam que a polícia deveria dar segurança máxima e permanecer por período integral em vez de fazer ronda. Adolescentes de Cuiabá, em Mato Grosso, querem policiais fixos na porta das escolas. "Há necessidade de policiamento, acho que na porta da escola, porque as vezes lá fica bastante gente que não é aluno. Se não é aluno, deixa ficar pra lá. Deixa quem está aqui dentro e fiquem para nos proteger." Mas também há muita reclamação sobre o modo de agir de várias pessoas que hoje fazem a segurança. Em Vitória, no Espírito Santo, os alunos reclamaram da maneira como a polícia procura drogas nas salas. "No começo do ano, houve um boato que estava tendo reuniões de policiais, professores e coordenadores. Saiu um boato na sala da diretoria que havia uma turma dentro do colégio agindo trazendo drogas para distribuir para os alunos. Por isso que os policiais estavam aqui, para tentar descobrir quem eram. Mas acho que eles não descobriram nada e deixaram para lá, ficou por isso mesmo", contou um estudante. "Assim, se a briga foi hoje amanhã eles mandam policiais, aí eles ficam olhando, aí tem os cachorros que ficam procurando drogas, aí ficam observando." Em Cuiabá, os alunos mostraram falta de confiança nos policiais. "Acho que até mesmo confiar no policial está dificil. Você não pode chegar perto de um policial e contar o que está acontecendo porque não acreditam. Eles também te dão muitas cantadas. Por tudo isso, não se pode confiar neles. O policial rouba, mata pessoas por nada. É mais fácil confiar em um bandido que num policial." Os pesquisadores relatam que as opiniões sobre a segurança variam muito conforme a imagem dos policiais. Muitos alunos abordaram as ações ou as omissões cometidas pelos agentes os atos de corrupção, o envolvimento com o tráfico de drogas, as agressões gratuitas a jovens, participação em assassinato de inocentes. Um dos alunos de Cuiabá afirmou em seu questionário: "Iam tomar a arma dele, mas ele, no outro dia, ia arrumar outra aí vem outro policial, vem e vende outra para ele." Para alguns estudantes de Mato Grosso, a polícia é violenta. "Como intimidação, ou então, encosta na parede e tal, vai fazer a revista em você, bater, descer o cacete." Bandos O tráfico de drogas e a atuação das gangues perto de escolas foram citados pela maioria dos alunos durante as entrevistas. "O clima de insegurança nos arredores de determinadas escolas tem como agravante a formação de gangues, que vão dos grupos de amigos até o grupo de traficantes e assaltantes, que em muitos casos contam com alunos como seus membros", afirmou um pesquisador. Nas respostas, os alunos e professores apontaram as imediações da escola como local de ação das gangues e do tráfico de drogas. Estes dois fatores, segundo a pesquisa, estão entre os cinco maiores problemas nos colégios. Os maiores porcentuais destes crimes foram apontados pelos estudantes de Manaus e Distrito Federal (50%), Goiânia e Porto Alegre (50%), São Paulo (49%) e Cuiabá (47%). O menor é do Rio, com 25% das indicações dos alunos. Em São Paulo, os alunos exemplificaram a dificuldade da definição do que seja uma gangue: skatistas, pagodeiros, clubbers, grupos fechados. Nesse caso, os pesquisadores não usaram o termo gangue. A ação desses grupos em Cuiabá inclui ameaças de morte e o ataque ao carro de um diretor. "Quando ele ia embora, o pneu estava furado, o toca-fitas roubado e os vidros quebrados. Ele vivia ameaçado. Chegou uma época que ele teve que ir para casa com duas policiais no carro", contou um estudante. No Recife, os alunos disseram que a abordagem dos traficantes de drogas é ostensiva. A primeira oferta de entorpecente é gratuita. Um deles afirmou: "Que quando você não é usuário, não usa e não curte, aí vêm várias pessoas oferecer. Aparece maconha, cocaína, cigarro, álcool, tudo de graça. Aí a pessoa vai." No Distrito Federal, os traficantes, segundo alunos e professores, vestem o "kit malandro" composto de boné, calça larga e frouxa, e usam meninas bonitas para a entrega da droga. Soluções Entre as recomendações da Unesco sobre os métodos a serem aplicados contra a violência nas escolas estão: conhecimento concreto do que ocorre nos colégios, identificação dos envolvidos, acompanhamento dos tipos de criminalidade mais comuns perto das escolas e o envolvimento de alunos, professores pais e da polícia no combate à violência. Para garantir as regiões seguras, dentro e fora da escola, a Unesco sugere que sejam instalados semáforos, passarelas e faixas de pedestres e colocados mais pontos de luz. O órgão cita ainda a necessidade de controlar a bebida para os menores e proibir funcionamento de estabelecimentos de jogos de azar. Seria preciso, também, coibir a venda de drogas. Veja no infográfico o que dizem os alunos

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