Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Número de pessoas que vivem sozinhas no Brasil sobe 43% em dez anos; entenda

Em meio à pandemia, 10,8 milhões dos lares tinham apenas um morador, aponta IBGE; tendência levanta debates sobre solidão, saúde e mudanças climáticas

Vinicius Neder e José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2022 | 10h30
Atualizado 22 de julho de 2022 | 23h42

RIO E SOROCABA - Quando a pandemia da covid-19 se abateu sobre o Brasil, em 2020 e 2021, encontrou 10,785 milhões de brasileiros morando sozinhos, mostram dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi um crescimento de 43,7% na comparação com 2012. Segundo o instituto, essa tendência de domicílios “unipessoais” pode estar relacionada ao envelhecimento da população. Entre os possíveis efeitos dessas mudanças, estão novos estilo de vida, no tamanho dos imóveis, nas relações de consumo e no uso de recursos naturais. 

Conforme o estudo Característica Gerais dos Moradores 2021, feito com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) e divulgado nesta sexta-feira, 22, Rio e Rio Grande do Sul concentram a maior proporção de pessoas com 60 anos ou mais. São também aqueles com maior proporção de lares com apenas uma pessoa, acima da média nacional – 18,4% do total de domicílios fluminenses e 18,3% entre os gaúchos. A taxa brasileira é de 14,9%. 

“O envelhecimento populacional pode contribuir, sim, para o aumento dos domicílios unipessoais”, afirma Gustavo Fontes, analista do IBGE. Ele destaca ainda o “forte predomínio” de mulheres entre os idosos que moram sozinhos. 

A tendência de pessoas que vivem sozinhas também é observada em países desenvolvidos. Na União Europeia, o número de domicílios cresceu 9,5% entre 2009 e o ano passado, segundo dados da agência de estatísticas Eurostat. Já a quantidade de casas onde há apenas um adulto cresceu 28,3%. 

Em 2018, o Reino Unido criou uma estratégia governamental para combater a solidão, diante do diagnóstico de que há 9 milhões de britânicos que vivem sós e 1,2 milhão de idosos permanentemente solitários- em isolamento que foi agravado pela crise do coronavírus. O fato de a parcela da população que não divide a casa com outras pessoas ser grande entre os mais velhos também acende o alerta para as demandas de assistência de saúde e psicológica para uma população mais vulnerável. Entre as ações do plano britânico, estão campanhas e um fundo de £4 milhões (cerca de R$ 26,2 milhões) para organizações que proponham atividades que conectem pessoas.

O Japão também adotou medida semelhante à do Reino Unido em 2021. Com os números de suicídios em alta, o país asiático criou um ministério para tratar dos problemas do isolamento e seus impactos na saúde mental.  

Em livro de 2012, o sociólogo americano Eric Klinenberg, da Universidade de Nova York, destaca que os quatro países com a maior proporção de domicílios unipessoais são nórdicos: Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca. Nessas nações, a proporção de lares com só uma pessoa varia de 40% a 45% do total, informa o autor.

Conforme o livro de Klinenberg, além de se espalhar por países desenvolvidos com diferentes tradições culturais, o fenômeno também ocorre nas nações emergentes. A obra cita China, Índia e Brasil como nações onde esse comportamento cresce mais rapidamente. Por isso, o sociólogo define o crescimento do número de pessoas morando sozinhas como uma “experiencia social transformadora” mundial, que “muda o jeito que entendemos a nós mesmos e nossas mais íntimas relações”, assim como a construção das cidades e os hábitos de consumo. Para Klinenberg, embora seja preciso estarmos atentos aos efeitos da solidão na saúde mental, morar sozinho não é sinônimo de vida solitária.

Embora o enriquecimento das pessoas conforme avança o desenvolvimento econômico seja uma condição para o crescimento do fenômeno e seu espalhamento mundial - daí porque economias desenvolvidas estariam à frente no processo -, o livro de Klinenberg vai além no rol de explicações. O sociólogo ressalta a histórica mudança cultural que o pensador francês Émile Durkheim, fundador da Sociologia, chamou de “culto do indivíduo”. Conforme Durkheim, diz o americano, essa mudança cultural se dá a partir da transição das comunidades rurais tradicionais para as cidades industriais da modernidade.

Klinenberg cita quatro mudanças sociais da 2ª metade do século XX que permitiram o aprofundamento do "culto do indivíduo": o aumento do status das mulheres, a revolução tecnológica das comunicações, a urbanização em massa e o crescimento da longevidade. Todos esses fatores seguiram avançando neste início de século XXI.

Dessa forma crescente número de pessoas que vivem sozinhas também chama a atenção do mercado imobiliário em várias partes do mundo. São Paulo, por exemplo, teve 250 mil lançamentos de apartamentos compactos entre 2014 e 2020, movimento também impulsionado por mudanças nas regras para construções na cidade, conforme mostrou o Estadão em maio. 

O historiador Lund de Castro Lobo, de 26 anos, tem família em São Paulo, mas desde março de 2021 mora sozinho, em um apartamento na Vila Mariana, zona sul paulistana. Ele divide as horas do dia entre o trabalho e o estudo - está cursando Direito. Lund morava com a mãe e o padrasto, na capital, e conta que optou por ter um espaço exclusivo durante a quarentena imposta pela covid-19.

"Foi uma opção minha. Acho que o que me levou a morar sozinho é que tenho um temperamento muito próprio. Durante a pandemia, o convívio constante exacerbou problemas normais de convivência e a necessidade de um espaço próprio ficou mais intensa", disse. Ele se acostumou bem à vida solo, mas não descarta a possibilidade de ter um pet, possivelmente um gato. "Tem a questão financeira e os cuidados, pois trabalho o dia todo e não poderia cuidar do bichano direitinho", diz.

E morar sozinho não é sinônimo de evitar um relacionamento estável. A designer de semijoias Liz Guedes, de 50 anos, de Sorocaba, é divorciada há mais de dez anos e mantém um relacionamento estável com um empresário de Salto, cidade próxima. Cada um, porém, mora em sua casa. O casal fica junto nos fins de semana, geralmente na casa dele. "É opção nossa. Mais dele até do que minha. Às vezes, durante a noite, sinto falta de uma companhia, mas também prezo muito pela minha privacidade", diz ela, que tem dois filhos já casados - uma mora nos Estados Unidos.

No caso do Brasil, embora todos os fatores que explicam o fenômeno mundo afora também estejam presentes, o crescimento da proporção de idosos, com queda no total de nascimentos e o aumento da longevidade dos mais velhos, pesa mais porque esse movimento demográfico tem sido muito mais rápido por aqui do que nas nações desenvolvidas, especialmente às da Europa. A explicação é do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. Segundo ele, embora os homens sejam a maioria entre os habitantes dos lares com apenas um morador, o crescimento de longo prazo desse arranjo tem sido puxado pelas mulheres. Elas predominam entre os idosos que moram sozinhos.

“É  mais uma questão demográfica. Está aumentando a longevidade, e existe uma diferença muito grande na longevidade entre homens e mulheres”, afirma Alves, explicando que, no Brasil, as mulheres vivem mais por causa do estilo de vida mais cauteloso, que passa tanto pelo fato de que os homens respondem pela larga maioria das vítimas de mortes violentas – assassinatos e acidentes de trânsito – quanto pelo hábito delas cuidarem mais da saúde.

A nova tendência, porém, traz consequências para o meio ambiente. Artigo de pesquisadores das universidades de Leeds, do Reino Unido, e de Aalborg, da Dinamarca, mostram que ter cada vez mais pessoas morando sozinhas aumenta os desafios de conter o volume de emissões de gases de efeito estufa. Cada casa, por exemplo, tem uma máquina de lavar ou uma geladeira, o que eleva o consumo de energia. No trabalho, publicado no jornal Buildings and Cities, eles apontam o compartilhamento de serviços, a criação de áreas públicas verdes e de lazer e a melhora do transporte coletivo como estratégias para mitigar impactos. 

Quase metade dos brasileiros se define como pardo

Os dados do IBGE reforçam outras tendências demográficas que já vinham sendo observadas nos últimos anos, como o aumento da proporção de idosos, a prevalência de mulheres no total da população e a consolidação das pessoas que declaram ter a pele parda ou preta como a maioria.

Em 2021, 47% dos brasileiros se definiam como pardos, 9,1%, como negros, enquanto os autodeclarados como brancos eram 43%. De 2012 a 2021, a população declarada de cor preta cresceu 32,4%, enquanto o total de declarados de cor parda avançou 10,8%. 

Segundo Fontes, do IBGE, embora as taxas de natalidade entre as mulheres pretas e pardas até sejam maiores do que as brancas, também deve ter contribuído para esse crescimento a autoafirmação das pessoas sobre a cor da própria pele – no método de entrevista da Pnad, a cor da pele ou raça é informada livremente pelo entrevistado, que responde por todos os moradores do domicílio.

O estudo Característica Gerais dos Moradores 2021 informa ainda que a população total cresceu 0,8% em 2020 e 0,7% em 2021, chegando a 212,650 milhões, mas o próprio IBGE esclareceu que essa estimativa, feita por amostragem, segue as projeções populacionais revisadas em 2018, que não incorporam os efeitos da covid-19 tanto no aumento da mortalidade quanto na redução de nascimentos.

Por isso, ao atualizar as estimativas obtidas a partir de amostragem com base nos dados do Censo 2022, que poderá ter as primeiras informações divulgadas no início do próximo ano, o IBGE deverá fazer ajustes nas composições da população, especialmente em termos de faixas etárias.

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