Ed Ferreira/AE
Ed Ferreira/AE

Petista em apuros apela a lula

Governo impopular e marcado por irregularidades ameaça reeleição da governadora Ana Júlia Carepa

Leonencio Nossa / TEXTOS Ed Ferreira/ FOTOS ENVIADOS ESPECIAIS/ BELÉM, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2010 | 00h00

Foi na maré vermelha de 2006 que a petista Ana Júlia Carepa se elegeu governadora do Pará, acabando com uma hegemonia de 12 anos do PSDB. A ex-nadadora das piscinas curtas do Remo, tradicional clube da elite paraense, no entanto, está com dificuldades de repetir a façanha. Ela é uma rara aliada do Planalto na região amazônica que não consegue aproveitar a pororoca provocada pela popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que vem estraçalhando as barrancas da oposição nos Estados da Região Norte.

Com ombros alargados pela prática do esporte na juventude, calça jeans apertada e blusa ainda mais justa, Ana Júlia, de 52 anos, mantém a autoestima elevada de quem ocupa um cargo cobiçado, mas está politicamente desesperada e cada vez mais rouca. A última pesquisa do Ibope apontou que ela está a 10 pontos do tucano e antecessor, Simão Jatene. Com uma série de acusações de nepotismo, tráfico de influência e uso da máquina pública para proveito pessoal, Ana Júlia insistia com o discurso de vítima de preconceito e companheira leal do presidente que dá Bolsa-Família para 600 mil paraenses que vivem em palafitas nas margens de rios e mangues.

A governadora viu a popularidade despencar quando a Fifa anunciou que Manaus, capital do rival vizinho Amazonas, seria a sede da Copa de 2014. No Pará, a paixão pelo futebol é explícita na rivalidade entre as torcidas do Remo e do Paysandu. O evento era vendido como a salvação de Belém, de 2,5 milhões de habitantes, que no começo do século 20 era chamada de Paris dos Trópicos e hoje não passa de uma cidade sem segurança, escura, tomada pelo esgoto, que perde, lentamente, seu casario histórico, marca do tempo da borracha.

Diante de inúmeras denúncias e trapalhadas políticas de Ana Júlia, o Planalto mandou, no começo do ano, o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, intervir no governo. Padilha "nomeou" como secretário da Casa Civil Everaldo Martins, irmão da prefeita de Santarém e opositora de Ana Júlia no PT, Maria do Carmo Martins. Era uma forma de esfriar o clima tenso entre o grupo da governadora com o grupo do deputado federal Jader Barbalho, dono do PMDB paraense e aliado fundamental na disputa de 2006. O rompimento dos dois teria sido agravado pelo temperamento do então secretário da Casa Civil, Cláudio Puty.

Figura de destaque nos escândalos de corrupção no Banco da Amazônia e nos títulos de terras no passado, Jader ainda detém um terço do eleitorado paraense, retransmissoras de televisão, um jornal e emissoras de rádio. O ex-rei do Pará lançou para governo do Estado o presidente da Assembleia Domingos Juvenil, que não engrenou. Ana Júlia trabalha para uma aliança com Jader num eventual segundo turno. É o que causa arrepios na militância petista paraense, que teve de engolir a aliança com o peemedebista em 2006.

A relação, ainda que tensa com Jader, prejudicou a imagem que Ana Júlia tentou construir de vítima das oligarquias. "Ela, na verdade, se ancorou no Jader. A governadora se tornou vítima da absoluta capacidade de honrar compromissos", ironizou o adversário Simão Jatene.

Governo em família. A "nomeação" de Martins também serviu para diminuir a influência do núcleo duro formado no governo por Ana Júlia, integrado pelo ex-marido da governadora, Marcílio Monteiro, secretário de Projetos Estratégicos, e do irmão dele, Maurílio Monteiro, secretário de Desenvolvimento. São eles que têm o controle da caneta das licenças ambientais, que custaram a Ana Júlia uma série de críticas de promiscuidade na relação com as madeireiras ilegais.

No começo do governo, ela chegou a nomear dois irmãos para cargos públicos, Luiz Roberto Carepa e José Otávio Carepa e um namorado, Mario Fernando Costa. O namorado também teve o nome envolvido em outro escândalo, em 2007. O Ministério Público investiga um contrato de R$ 3,7 milhões firmado entre o governo estadual e o Aeroclube do Pará, comandado à época por Costa, para formação de 14 pilotos.

Abordada pelo Estado, na última quinta-feira, Ana Júlia disse que "adoraria falar" com o jornal, mas não tinha tempo. Nas entrevistas controladas pela assessoria, a governadora costuma dar uma resposta padrão às denúncias: é vítima dos machistas e preconceituosos.

A pessoas próximas, Ana Júlia se queixa que Lula não lhe dá atenção, deixando-a sozinho na disputa com os tucanos. Assessores do Planalto lembram que o presidente se desdobrou em viagens eleitoreiras especialmente para anunciar, ao lado dela, projetos que até hoje não passam de boas intenções, como a siderúrgica da Vale em Marabá e melhorias de estradas do Sudeste do Estado.

Por sua vez, Lula nunca escondeu que não suporta o mormaço amazônico e o estilo, digamos, aberto de Ana Júlia. A exposição da vida pessoal pela governadora não é bem digerida pelo presidente, relata um assessor do Planalto. Para socorrer a petista, no entanto, ele esteve na noite de quinta-feira em Pedreira, bairro pobre de Belém num comício da governadora. Ele disse que a "diarista" e "empregada doméstica" Ana Júlia concorre com uma elite "rabugenta". "Chegou a hora de a diarista dar o troco na elite política do Pará", gritou Lula. "Eles vão ter de explicar o preconceito contra uma mulher!"

A mudança radical no perfil da filha de uma família classe média alta de Belém foi provocada pela propaganda no rádio do adversário Simão Jatene. Uma personagem inspirada no programa A diarista, da Globo, vivia reclamando que precisava arrumar a casa. No dia seguinte, uma rede de entidades de mulheres ligadas ao PT protestava contra o preconceito contra a governadora e a classe das diaristas.

Uma equipe da agência de marketing baiana Link Propaganda também aterrissou em Belém para ajudar a companheira. Estimada em R$ 47 milhões, a campanha de Ana Júlia explora o tecno brega, um som feito no Pará - Jatene informou que deverá gastar R$ 10 milhões. O jingle da campanha tenta afastar dela a imagem de tracajá, a tartaruga dos rios amazônicos, explorada pela oposição. A música começa com o barulho de motores de carro de corrida. Depois, um jovem comenta: "Isso é um avião, mano!" A música, então, começa, com uma cantora rouca: "Acelera, meu Pará!"

"Muleta". Na malandragem política, o adversário Simão Jatene foi para a TV dizer que, à época em que foi governador, conseguiu fazer mais obras em parceria com o governo federal do que Ana Júlia. "Ela está desde o início trabalhando com a história da muleta", diz Jatene, referindo-se à ligação da governadora com o Planalto. "Mesmo tendo o governo federal contra, conseguimos fazer muitas coisas. Se (a ligação com) o governo federal é uma vantagem, ela não conseguiu usar, talvez por questão de competência", completou. "Esse foi o mote de nosso comercial."

Jatene prega nos programas eleitorais que Dona Dunga, a governadora que perdeu a Copa, outra personagem que inventou, só atrapalha Lula. O tucano diz que construiu seis hospitais. A governadora contra-ataca e diz que foi ela quem equipou e colocou médicos e enfermeiros nos prédios construídos por ele. No comício que fez ao lado de Lula, Ana Júlia se esforçou para derrubar a estratégia de Jatene e esbravejou: "Diga, meu presidente, se eles (tucanos) ajudaram a trazer as coisas para o Pará e qual é a relação com o nosso governo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.