Petista toma aulas para virar ''Mano''

Na caça aos votos, Mercadante cola no apresentador Netinho, candidato ao Senado, treina sorrisos e discursos mais simples e até canta nos palanques

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

"Liiindooo! Maravilhoosooo!" Vozes femininas ecoam na multidão, mãos esticadas abanam canetas à espera de um autógrafo, câmaras digladiam em busca de um espaço vazio entre as cabeças. No calçadão do centro de Carapicuíba, entre cotoveladas e empurrões, o personagem principal deveria ser Aloizio Mercadante, o candidato do PT ao governo de São Paulo. Mas os gritos são para Netinho de Paula (PC do B), o ex-pagodeiro, candidato ao Senado e seu companheiro de chapa.

"Não que a mulherada não ache ele (Mercadante) lindo, é que Netinho é cantor, é outro tipo de sucesso", explica "seu" Getúlio, de 47 anos, que passou os últimos 24 anos atrás do balcão da Lanchonete Carolina, na Cohab 2. "Aqui na comunidade, todo mundo vota no Netinho. O povo gosta de artista, sabe? "

A equipe de campanha de Mercadante sabe. A imagem do candidato ao governo tem sido colada à do apresentador de TV - desde o início da campanha os dois cumprem intensa agenda juntos. Em cidades como Ribeirão Preto, Sertãozinho, Jales, Araraquara, Votorantim e Osasco, a dupla desfilou, acenou para o povo em carretas. Lado a lado, os dois discursaram juntos em comícios.

A estratégia por trás disso tudo é clara: Aloizio Mercadante é um nome muito conhecido, "mas grande parte do eleitorado ainda não liga o nome à pessoa", esclarece o marqueteiro Augusto Fonseca, responsável pela campanha vitoriosa de Marta Suplicy (PT) para a Prefeitura de São Paulo, em 2000. Ao contrário do principal adversário, Geraldo Alckmin (PSDB), governador em dois mandatos, o desafio de Mercadante é tornar a sua imagem conhecida. "É evidente que Netinho tem um perfil popular. E é evidente que isso ajuda as pessoas a reconhecê-lo em público e a verem Mercadante ao seu lado", diz Fonseca.

Imagem. Duas empresas cuidam da imagem dos dois - a MPB, de Fonseca, e a Nova Estratégia. "Atuar juntos é bom para os dois, Mercadante aprende com Netinho a ser popular, a estar à vontade nas ruas. E Netinho ganha com a experiência de Mercadante na política", diz o publicitário.

A equipe conseguiu convencer o acadêmico Mercadante a amaciar o vocabulário "para melhor entendimento da população". A preocupar-se menos com números e mais com "a situação das pessoas". Em vez de críticas ao adversário, tem sido orientado a perguntar aos eleitores se estão satisfeitos com a escola dos filhos, a clínica médica, o pedágio.

Na semana que vem, quando começa a gravar o programa eleitoral gratuito, Mercadante mergulha em uma tarefa ingrata: abrir mão do palavreado técnico, que encorpou em seus tempos de professor da Unicamp, do politiquês dos oito anos no Senado e do negro bigode que, de tão longo, já lhe cobre os lábios superiores. "Aquele bigode vai ter de ser ajustado, porque dificulta a compreensão da fala", ameaça o marqueteiro. Também invadiram seu guarda-roupa, decretando ternos escuros para palestras e entrevistas na TV e camisas mais despojadas para o corpo a corpo nas ruas.

Já há sinais de progresso. O senador anda mais solto e sorridente. Em Jacareí, ele e Netinho rezaram juntos a missa dominical diante de mais de 15 mil fieis, na 28ª Feira Agropecuária. Na quinta-feira, em Votorantim, o músico puxou o samba, o senador acompanhou no batuque e até se atreveu a tocar berimbau.

Em Carapicuíba, a carreata dos dois pelo reduto do "mano" ex-pagodeiro durou quase duas horas. Visitaram a Cohab 2 - onde Netinho formou com amigos a banda Negritude Junior -, a antiga padaria onde o grupo ensaiava, a escola onde o músico estudou. No centro comercial, foram empurrados pela multidão, fizeram uma confusa caminhada - quase um cooper. Marta Suplicy esperava, quase esquecida, no carro de som. Foi um dos poucos compromissos em que ela e Mercadante saíram juntos.

Nos bastidores do PT, diz-se que o ciúme de Marta, que já era conhecido, só fez aumentar - a ponto de o jingle da campanha da petista excluir Mercadante.

O coordenador da campanha, Emídio de Souza, nega o mal-estar. Garante que os dois têm tido agendas diversificadas para aumentar o alcance da campanha. "Ela tem se concentrado em lugares onde ele não precisa ir agora. Mas, quando Marta está sozinha, divulga o nome de Mercadante", afirma Emídio. Diante da tietagem, ele não esconde a força de Netinho. "Claro que ele traz votos. A força dele é incrível, tanto na Grande São Paulo como no interior".

Ao lado do músico, Mercadante canta e dança o jingle de Netinho. Sorri mais e parece à vontade no meio das eleitoras. Que, alheias aos seus cálculos políticos, mandam bala no refrão: "Netinho, cadê você? Eu-vim-aqui-só-pra-te-ver!"

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